Escrevo aqui alguma coisa relativa à arte. A "poesia" do título traduz-se para mim como a inspiração, a sensibilidade e intuição de quem cria o belo, e acaba por embelezar o mundo; é como um chamado para longe, muitas e muitas léguas para dentro de si mesmo.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Um poema - II
O sobrenatural
Se esconde embaixo da cama
Espelhos e cortinas
Vozes, sopros, aparições
Vindas de outras dimensões
- É sina.
São segredos de Deus
Que rebentam na escuridão
Em noite de lua cheia
Ou dia de procissão
Nos terços das beatas
Milagres, ritos e meditação
Seriam também anjos
Ou almas que vagam sofridas
em rastros de temor
Mas se uma alma vive em ti
Somos iguais no medo e na dor
O sobrenatural
Paira sobre o natural
É o óbvio que não se enxerga
O acontecimento que prevemos
E depois do acontecido, descremos
Se é somente alucinação
Engodo, medo sem explicação
Ainda assim o sobrenatural vive em nós
E negá-lo, aniquilá-lo
Seria calar sua própria voz.
Julia Lima
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Um poema
Viveria para morrer
Se a morte fosse celebrada
Como um começo
E recomeço
De girassóis a nascerem
Num túmulo sem endereço
Viveria para morrer
Se a morte fosse serena e bela
Esboçada num sorriso
Como a brisa da janela
Na derradeira casa em que vivi
Viveria para morrer
E renascer
Mil vezes mais
Do que cada célula do meu corpo
Pudesse contar sobre mim
Antes que tudo desaparecesse
E retornaria, enfim
Viveria para morrer
Sem agonia
Ou êxtase
Mas apenas a sabedoria
De viver o presente que a vida nos dá
Viveria para morrer
Se assim tivesse de ser
Para então compreender
O que é a vida.
Julia Lima
domingo, 30 de março de 2008
UM PERFIL

(Perfil assinado por mim no jornal "Correio", 2006, em linguagem e formato mais "padrao"...)
Capoeirista versátil
Mestre Boa Gente, 60 anos, já fez incursões pelo samba, maculelê, rádio e teatro
Mestre Boa Gente desenvolve um trabalho social no Vale das Pedrinhas, ensinando a crianças e jovens carentes:
`Eu aprendo ensinando´
Quem vê o andar gingado de mestre Boa Gente, arrastando chinelos e calças brancas pelo Vale das Pedrinhas, nem imagina que ele possua tantas outras facetas além da boa e velha capoeira. Iniciado desde os 6 anos nos movimentos africanos, Boa Gente conheceu a capoeira em todas as suas vertentes, experimentando diferentes formas de dança e combate. Seus pés calejados já trilharam desde os passos delicados da dança de salão até a brutalidade pujante dos ringues de vale-tudo. E como se não bastasse tanta versatilidade, Boa Gente já fez incursões pelo samba, maculelê, taekwondô, dança afro, rádio, teatro, e o que mais o seu corpo de 60 anos lhe permitir. "A história aqui é longa. É coisa de mais de 30 anos", adverte ele, preparando-se para uma longa entrevista em sua rádio comunitária no Vale das Pedrinhas.
Ali, cercado de alunos carentes do bairro, mestre Boa Gente desenvolve com eles um trabalho social reconhecido no Vale das Pedrinhas e em todos os cantos do mundo. Servindo de tema para um documentário da National Geographic, o dia-a-dia da Associação de Capoeira Mestre Boa Gente já foi exibido para milhões de pessoas ao redor do globo. No terraço de sua casa, em Vale das Pedrinhas, são ministradas aulas gratuitas para mais de 150 crianças, que aprendem com ele os segredos da dança, capoeira, maculelê e até mesmo da locução de rádio, o que comprova a enorme quantidade de conhecimento acumulado. "Eles aprendem um pouquinho de tudo, e aí é que entra a versatilidade: você tem que encontrar o que o outro se adapta melhor", explica ele, deixando óbvio o seu talento para descobrir talentos.
Após as aulas, mestre Boa Gente convida os alunos para participar da elaboração e locução de notícias da rádio comunitária, se inteirando sobre os problemas do bairro onde vivem e conhecendo os princípios da atividade jornalística. "É para tirar a timidez deles nas aulas, aprender a falar", justifica. Criada por ele em 1969, a tradicional Rádio Comunitária de Vale das Pedrinhas divulga notícias gerais e principalmente locais, prestando serviço a toda comunidade. "Aqui é documento, criança que se perde, cachorrinho... se furar um tubo a gente liga para a Embasa", exemplifica ele, enquanto anota a divulgação do enterro de um morador da comunidade.
Atividades diversas
Os trabalhos na rádio e na associação são divididos com o de professor de capoeira dos alunos de uma escola particular, o Colégio São Paulo. Tendo estudado até a 1ª série, mestre Boa Gente acredita que tem aprendido muito com seus alunos. "Eu aprendo ensinando. Hoje, são eles que me ensinam computador", revela modestamente, apontando para um de seus alunos da comunidade.
Pai de quatro filhos, Boa Gente conheceu cedo as artimanhas da capoeira, quando ainda atendia pelo nome de batismo, Vivaldo da Conceição, e vendia nas ruas do interior bananas e mingaus. Na época, ele acabou se mudando de Ibicaraí, "município velho, mas que ninguém conhece", no sul da Bahia, para a cidade de Ilhéus, acompanhando a irmã que acabara de se casar. De Ilhéus para São Paulo, a cidade dos sonhos, seria um pulo, se sua mãe não tivesse exigido que ele fosse para Salvador, local que considerava mais seguro.
Aqui chegando, morador do Calabar, Vivaldo conheceu Mestre Gato, grande capoeirista do bairro, e com ele deu seus primeiros passos e golpes rumo à arte da capoeira. "Naquele tempo, ela era feita na rua, não se fazia em teatro. A capoeira era discriminada, coisa de preto, marginal", conta ele.
Como na rapidez dos movimentos de capoeira, Boa Gente foi se tornando conhecido no meio, e realizou apresentações públicas na academia do famoso mestre Pastinha e na Associação Atlética da Bahia. Com a visibilidade, surgiu seu primeiro convite para o exterior, e lá, nas terras frias da Bélgica, seus golpes de capoeira ficaram marcados entre as manifestações folclóricas de vários países do mundo.
Filho de Ogum
De 1973 para cá, os convites para o exterior não pararam mais: sua capoeira, dança e arte vêm sendo divulgada nos Estados Unidos, em Portugal, Peru, Canadá e, recentemente, no México, onde acaba de receber um convite para reapresentar a peça da qual é protagonista, sobre Zumbi dos Palmares. "Todo ano eu viajo para o exterior. Agradeço a Deus e aos orixás", conta o filho de Ogum, creditando aos convites que recebe à sua versatilidade nata.
Levando a cultura africana aos quatro cantos do mundo, ele já participou de seis documentários estrangeiros, e acaba de voltar de uma viagem a Hollywood, onde ajudou a ensinar capoeira aos dois mais caros atores de artes marciais do cinema americano. "Na primeira vez que fui, fiquei um pouco nervoso. Cair dentro de uma cidade como aquela, sem falar a língua, vindo da periferia de Salvador, do terceiro mundo...", recorda ele, apreensivo. Hoje, a profusão de cartazes, matérias jornalísticas em inglês e fotos no exterior, expostos em sua casa e na rádio comunitária, demonstram que mestre Boa Gente venceu mais essa luta.
Disposto a divulgar a cultura local, ensinando capoeira em várias escolas e universidades do exterior, ele não pensa em morar fora da Bahia. A idade um pouco avançada, assim como o amor pela cultura local, impedem-no de viver no exterior: mestre Boa Gente não saberia viver sem o tempero baiano, o sol do Verão, ou mesmo um bom prato de feijoada. Mesmo assim, seus olhos brilham ao falar das viagens e experiências que viveu, confirmando sua versatilidade e incansável vontade de aprender. Isso porque, nas horas vagas, o capoeirista ainda arranja tempo para estudar inglês, e já fala espanhol com facilidade. "Vou continuar lutando", anuncia o mestre, sempre disposto a dar novos passos na capoeira, na arte e na vida.
sábado, 15 de março de 2008
Uma crônica
Pelos corredores, blasfemava contra repórteres e jornais de grande circulação, atentando para o prazer e a importância de se ler e reler os grandes clássicos. Mas não lhe davam ouvidos. Diziam-no um velho. No entanto, foi a impaciência de sua juventude que o fez se debruçar sobre um conjunto imensurável de obras antigas, tomando Goethe, Proust e Montaigne por amigos íntimos. Perante nosso seleto grupo de futuros jornalistas, ousava declarar que não lhe apeteciam as “novidades”; e citava Borges, em sua visão soturna de que a imprensa veio multiplicando até a vertigem textos desnecessários e fáceis de serem esquecidos.
Os colegas, em vão, discutiam, questionavam o que raios ele estaria fazendo ali. Afinal, em anos de convivência no jornalismo, flagravam-no freqüentemente disperso, alheio às aulas, quando não levantava e declamava em voz grave algum poema de um autor clássico abordado porventura por um professor. Escrevia contos. Quando não os agradava, contava bolinhas de papel sobre a mesa, para em seguida levantar-se e, passo a passo, jogá-las uma a uma no lixo da sala de aula. Era demasiado lento.
Certo dia, no pátio vazio da faculdade, consegui que me mostrasse um de seus contos. Apenas li alguns trechos, que descobri incompreensíveis. Foi quando revelou que nutria há muito o desejo íntimo de ser um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Mais do que isso, ele queria o privilégio de constar em referências, ser lido, relido e lembrado por toda a eternidade. Mas na efemeridade da vida, já anoitecia. Sorri e me despedi.
Eis aqui uma das últimas recordações que guardo do meu amigo. Depois disso, só avistei-o mais uma vez ao longe, lendo as mesmas folhas, que um vento repentino teimava em querer arrancar. Até que, nesses últimos dias, recebi uma triste notícia. É que o seu temível hábito de atravessar a rua distraído custou-lhe a vida. Tinha tudo pela frente, mas esquecera-se de olhar para os lados. Nem sequer chegou a publicar seus contos enigmáticos. Encontraram-no caído, os sonhos desmoronados, os passantes sem conseguir identificá-lo. Morrera anônimo. O que me consola é que, nos últimos tempos, ele deve ter se imaginado, desgostoso, tomando chá na ABL ao lado do Paulo Coelho, ou outros escritores de gosto fácil. Acho que com isso morreu menos frustrado por não ter conseguido o que queria. Além de tudo, será por mim eternamente lembrado. Afinal, já não se fazem mais imortais como antigamente.
Julia Lima
(Crônica/conto publicada em 2003, no jornal da faculdade. Bons tempos.)
sábado, 12 de janeiro de 2008
O Mar de Sophia
O mar tem uma grande importância em minha vida, e acredito que na vida de muitos. Vivendo na Europa, distante das águas e do sol de Salvador, devo afirmar que não é só a saudade de mergulhar naquelas ondas, com temperatura e cores perfeitas, que me fez escrever esse texto. Criada numa cidade quase cercada de mar por todos os lados, posso dizer que ele rodeia quase constantemente os meus sonhos. Sim, falemos mais uma vez, brevemente, de sonhos: em 90% deles, as desavenças, perseguições, vôos, sexo, lutas, tudo que sonho acontece dentro do mar. Algumas vezes, o cenário sofre variações, tornam-se piscinas ou rios, para então desaguarem novamente em oceanos. Estranha obsessão. Os psicanalistas diriam que o mar é como o inconsciente, e aquele que sonha como um ser em busca de melhor conhecê-lo, mergulhando nas profundezas irracionais do seu intelecto. Devem estar certos.
Não por acaso, as águas estao sempre presentes nos meus filmes, realizados ou não. De início, era uma coisa inconsciente; hoje sinto falta do mar em algumas cenas, e acrescento-o como uma parte de mim. O primeiro filme que realizei, baseado num conto de Jorge Luís Borges, trata da história surreal de um homem que depara-se consigo mesmo quando jovem, numa praça em frente a um rio. Os closes das águas no filme simbolizam o tempo que passa, e fiz questão de modificar o cenário para um lugar deserto e paradisíaco, na areia branca, onde ocorre o encontro do rio com o mar, o jovem e o velho, o passado e o presente, entre outras dualidades do filme, intitulado À Margem do Tempo.
O mar também está presente de maneira quase obsessiva na cultura portuguesa, cujas águas são mais frias, mas nem por isso menos belas. Basta uma rápida passagem por Lisboa para conferir a eterna nostalgia lusitana do período das grandes navegações, presentes nos monumentos, exposições, arquitetura, em que proas de navios enfeitam topos de edificações, e estátuas de homens descomunais da idade média se dirigem ao mar em busca do desconhecido. Talvez seja desconhecido a palavra que melhor sintetiza o imaginário sobre os oceanos; e quanto mais sonho com eles, mais descubro sobre imagens e sensacões secretas do meu inconsciente.
Em minhas descobertas dentro e fora de mim, acabei ancorando na terra das grandes navegações, e encontrei um povo tão apaixonado pelo mar quanto eu. Mas o melhor foi ter-me deparado com uma mulher muito especial, cujas palavras vem povoando minha mente: Sophia de Mello Breyner Andresen. Tradicional escritora portuguesa, muito prestigiada aqui - e pouco conhecida no Brasil -, romancista, poetisa e contista, Sophia me comoveu com seu encantamento pelo mar, que dá o titulo a um dos seus livros de poesia mais conhecidos. Transcrevo abaixo, em sua memória, um trecho que faz transbordar emoções a cada vez que o leio:
"Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar".
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 16 de dezembro de 2007
Sonhos num país chamado Europa
Nunca soube que o sol, o mar e a Bahia me fariam tanta falta. A espontaneidade do povo - dos pescadores do Rio Vermelho aos tagarelas da fila do banco -, a atmosfera viva e clara, a visão da Baía de Todos os Santos nunca me foram tão caras quanto no periodo em que morei na capital Londrina. No entanto, vivi coisas e pessoas que marcariam para sempre minha personalidade.
Assim que cheguei em Londres, há mais de dois anos atrás, tive a exata noção do que era o tal fenômeno da globalização e a União Européia. A pluralidade de culturas, línguas e experiências flagradas num curto período de tempo me fascinava, surpreendia, e nao havia chances de ficar imune a ela. Numa mesma residência universitária, vivíamos eu, uma enorme alemã, minha amiga grega, uma canadense filha de francês, uma inglesa descendente de indianos e uma chinesa de Hong-Kong, todas em quartos separados, mas respirando os diferentes sabores da mesma cozinha. Em Londres, nada parecia ser impossível. Centro cultural do velho continente, sua grande metrópole, ela exibia o tempo todo o quão coesa poderia ser a União Européia, cujos pequenos territórios foram elevados juntos à condição de um só país. De norte a sul, todos aportavam em Londres para falar inglês, atraídos pelo brilho das libras esterlinas. Era uma mistura desenfreada de culturas. Na rua, nao pude conter o riso diante de uma placa anunciando um restaurante "mexico-polones": mas o que viria a ser isso?
Na escola de cinema que frequentava, o estranhamento não era menor. Os europeus do mercado comum, pagando anualidade muito mais barata que nós, exibiam curta-metragens de imagens insólitas, ou mesmo documentários de guerras civis que nunca soube. Do Brasil, trouxe na mala o filme de um menininho que encontrava na praia um instrumento mágico, fruto de um sonho que havia tido. Como o mundo infantil é conhecido de todos, as palmas dos colegas pareceram compreender a pequena obra.
Com temáticas mais universais em mente, imaginava que um dia encontraria mais espaço como realizadora na cinematografia européia do que na brasileira. Mas os obstáculos nao foram pequenos. Em pouco tempo veio o frio, menos insuportável do que a neblina e escuridão típicas de Londres. E aquilo parecia não ter fim. Bons casacos eram artigos de luxo, pois nada parecia ser mais caro do que aquela cidade na Europa e no mundo. Atravessava Londres só para trabalhar quando tinha tempo, menos nos famosos ônibus vermelhos do que em metrôs multiculturais, e o estado deplorável das estações me fazia sentir uma toupeira ou outro animal qualquer debaixo da terra. E como em Londres tudo é possível, logo me vi como diretora de arte num filme de um amigo gay espanhol de temática sado-masoquista. Naquele momento, era eu quem me auto-flagelava sem perceber: o clima, as longas distâncias e a superpopulação daquela cidade ja se tornavam dolorosos para mim. O quadro de Monet acima, retratando a capital inglesa numa forte tempestade, revela muito do que se passava nos céus de Londres e em minha alma naquele período.
Mas a primavera vinha chegando, e com ela um sonho que marcaria minha vida. Acordei fascinada, anotei cada imagem ou sensação e não pude mais dormir. Nascia o roteiro do meu primeiro longa-metragem, tipicamente surrealista. Contava a historia de uma personagem sofrida, atormentada, o homem kafkiano que já havia mencionado no post anterior. Escondia-se do sol e de todos como um animalzinho assustado, e sua aparência era nítida: muito magro, pálido, loiro, olhos fundos e claros como um escandinavo. Na história, uma menina de cabelos curtos e cheia de vida - que eu sentia ser meu alter-ego -, chegava dos céus e se propunha a salvá-lo.
Ora, qual não foi minha surpresa quando iniciei um romance com um sueco fisicamente idêntico, e que mais tarde descobriria padecer de fobia social! Sim, a vida imitava a arte: me vi tentando de todas as formas ajudá-lo, incentivei-o a praticar comigo meditação, e o convenci sob duras penas a iniciar uma terapia. Só mais tarde fui perceber as coincidências com o meu sonho, que me assustam até hoje. Desde criança minhas noites de sono sempre tiveram um que de premonitório, e já não era algo tao novo para mim. Dei continuidade às aulas de cinema, ao roteiro do longa e aos amigos, ao contrário - por razões um pouco óbvias - do romance escandinavo.
Não demorou para que eu tivesse outro sonho-filme, realizado depois não em celulóide, mas na textura da realidade. Acordei e anotei: duas irmãs de 6 e 9 anos sofriam de fome e abandono numa zona rural do Brasil, e algo acontecia para mudar suas vidas e acentuar suas diferenças drásticas de personalidade. Como sempre, o sonho obedecia ao melhor estilo dos manuais de roteiro: primeiro ato, principio-meio-fim, diálogos encadeados cena apos cena...vinha pronto o projeto de mais um curta! Meses depois, a "coincidência": procurando emprego em Londres, me deparei com duas menininhas francesas de idades e personalidade idênticas ao sonho, que viria a cuidar na condição de babá. Os mesmos tipos de briga entre elas, a mesma tristeza pairando no ar - pois embora nao padecessem da miséria tipicamente brasileira, lidavam com o abandono do pai -, e as formas de reagirem ao sofrimento diametralmente opostas, como no sonho. Mal pude acreditar. Dessa vez mergulhei em teorias junguianas, freudianas, orientais, descobri experimentos que afirmam que viajamos no tempo enquanto dormimos. Isso me fez lidar melhor com episódios mais macabros da adolescência, como pesadelos anunciando mortes que se concretizaram.
Misticimos à parte, depois de tudo isso, renasci. Retornei ao Brasil de férias em pleno verão, revi pessoas queridas, mergulhei no mar e tatuei um sol no pulso. Escuridão, nunca mais. :) Se queria viver na Europa, que fosse num país mais claro e cheio de vida. E assim fui para a Espanha. Lá estudei a língua, reencontrei velhos amigos, pesquisei cursos de cinema e revi o sol, mesmo nos dias de inverno mais rigoroso. Vivia feliz em Madrid. Até que encontrei um português que estava visitando a cidade, e minha herança lusitana falou mais alto. :) Hoje vivemos juntos em Braga, Portugal, uma linda cidadezinha montanhosa onde estudo fotografia e o que mais interessar, enquanto me envolvo em outros projetos interessantes. Sim, esse é o resumo da minha vida errante na Europa. E não acaba aqui: ano que vem deveremos retornar a cidade do sol, !Dios me asista! E que esse mesmo Deus, através de outros belos sonhos, me ajude a entender mais sobre os mistérios do mundo.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
No tempo da indelicadeza
Já nos idos 70/80, o cineasta Glauber Rocha, enquanto crítico, alertara para o modismo da violência nas grandes telas. De lá pra cá, é triste constatar que nada mudou; provavelmente a tendência foi agravada. Num artigo do seu imperdível O Século do Cinema, Glauber discorre sobre o perfil ideal do herói norte-americano: homem belo, forte, com grande senso de justiça e sanguinário. E como a platéia vibra com ele - e com o sangue alheio! Antes mesmo de Roma atirar os cristãos aos leões sob gritos de euforia, já era sabida a curiosidade mórbida que habita cada um de nós. Afinal, a morte é parte fundamental da vida; é natural que seja assim. Triste é saber que pensam tanto em lucro quando se trata de explorar esses instintos mais desumanos; que seja preferível causar o temor, sentimentos sádicos no espectador, quando se poderia despertar a mais bela das sensações através da grande tela.
Para além da violência e o sadismo, o cinema em geral foi se tornando, após o período da morte sentida de Glauber, mais e mais acelerado. O gênero dos filmes de ação foi consolidado e também os chamados thrillers de suspense, cada vez mais envolventes, assustadores, dominando com suas poderosas garras os complexos de salas de cinema. No Brasil, a moda justificada dos filmes que recontam a marginalidade não economiza em sangue, suor e tiros; nunca tantos foram mortos pelas telas do cinema brasileiro. Ora, talvez eu esteja exagerando, ou soando moralista demais; mas a cada vez que vejo uma lista ininterrupta de cartazes, todos de "filmes-de-arrancar-o-fôlego", ainda é difícil não arrancar o meu. Sou daquelas que lamentam; não tanto por um tempo que se foi (como a era de ouro do cinema hollywoodiano), mas pelo que poderia ser. Nesses momentos, me vêem à mente a sutileza da troca de olhares de um casal em Wong Kar-wai, os passeios contemplativos à beira-mar num filme de Angelopoulos, ou a histeria ingênua das mulheres almodovarianas. São todos seres solitários, recolhidos num canto mais alternativo, ou relegados à condicao de exibição num período e sala pequenos demais para a sua beleza.
Se interessa ao público menos assistir a filmes assim, não é somente pelo desejo sádico de ver sangue escorrendo pelas telas; do alto da minha psicologia de botequim, eu diria que o stress nas grandes cidades só vem aumentando, assim como o ritmo dos movimentos das ruas, carros e pessoas. É a era da ansiedade, que precisa ser realimentada constantemente por drogas, buzinas e coisas como filmes de ação, suspense, terror ou o que valha. Triste destino. Nunca se ouviu falar em tantos consultórios de psicologia, anti-depressivos, terapias alternativas, yogas e afins; é o que resta aos mais saudáveis que, conscientes de que vivemos a era da ansiedade, buscam o oásis em um filme ou arte mais contemplativos.
Penso agora que talvez tenha escrito tudo isso, inconscientemente, em defesa de uma personagem, o protagonista do meu roteiro de longa-metragem. Homem delicado, sensível, marcado pelas agruras da família e da vida - tal qual o jovem Franz Kafka, cujas confissões pessoais me inspirei - é um ser que nao consegue se adaptar a esse mundo. Pior do que isso: foi esmagado por ele. Mas isso ja é assunto para outra postagem. :)
Julia Lima