terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um poema, involuntariamente, no estilo Whitman

 
       Pedra em homenagem a Walt Whitman, EUA


(Poema publicado na antologia portuguesa Entre o Sono e o Sonho, lançado em março de 2013, no Cassino Estoril, pela Chiado Editora).


DESNUDAMENTO

Quando me expando nas planícies
em todas as relvas
e me deito, lânguida e preguiçosamente
quando flutuo no mundo
e pairo e pairo
sobre todos os homens
mulheres, velhos de boa fé
todas as crianças de mim
quando sobrevôo as criaturas
pensamentos, ruídos de gente e mato
quando sou cada coisa
cada dia, cada sonho
perdido e sombrio
cada arena dura de sangue
quando me estendo nos riachos
todos os riachos
(e sensíveis são os riachos, porque os sinto)
quando sou todas as águas
todos os mares de espuma
todas as formas
quando sou muito além de mim
infinitamente sendo
paradisíaca mulher nua
quando sou tudo o que é
eu sou
eu sou.

domingo, 25 de novembro de 2012

CARTA ABERTA À BEATRIZ


Bia querida,


Nem parece que já faz um ano que a mamãe te viu pela primeira vez...Você foi de longe a melhor coisa que já me aconteceu, e confirmo isso nos seus olhinhos todos os dias. Que você nunca esqueça o quanto a sua mãe e sua família te amam, ainda que às vezes, num futuro próximo, possa parecer que não.

No dia do seu primeiro aniversário, poderia mencionar uma quantidade de bênçãos infinita, porque infinito é o amor que lhe tenho. E ao contrário do que parece, o que importa não é tanto ser amado, mas sobretudo amar, como ensinou o mestre Tolstói. E o amor de mãe é de uma força assustadora.

Te desejo não só o privilégio de um dia ser mãe, mas sobretudo de ser amiga daqueles que lhe são caros; e que você também tenha sempre ao lado os amigos corajosos e fiéis do Victor Hugo.

Que você mantenha sempre essa espontaneidade linda, essa imprevisibilidade lúdica das crianças e animais; os homens se rendem a elas, por havê-las abandonado sem perceber. Surpreenda sempre os outros e a si mesma, lembrando que você só é o que decide ser – e isso pode ser feito a qualquer momento. O tempo de mudar quem você pensa que é é sempre agora.

Importante, filha: não intelectualize demais a vida, sob pena de perder-se do seu próprio corpo e instintos naturais. Lembre-se sempre que você é a natureza – e Deus, ou os fios que te ligam a ela, são a parte mais nobre do seu ser. Haverá quem mostre amarguras e ceticismos, mas jamais se deixe levar por eles. Deus é uma experiência pessoal e intransferível, à qual é um privilégio vivenciar; e só você saberá o caminho que te levará às suas origens.

Também não se deixe levar pelos hábitos alheios da maledicência, de qualquer tipo. Se você respirar fundo, sentirá que a existência é bela e sábia, ainda que algumas pessoas não a tenham percebido. Observe calmamente o mar, as montanhas e rios; dê a si mesma sempre essas meditações, para calar a tagarelice tola da mente. No silêncio está a verdadeira sabedoria.

Você verá que os anos passam, filha, e envelhecer é tornar-se inflexível, intolerante ao novo. Tente não possuir muitas convicções arraigadas, porque são elas que possuem aos homens. Alguns valores morais são importantes, mas de resto, esteja sempre disposta a se surpreender. Essa é a verdadeira juventude.

E por fim, esqueça tudo o que a mamãe te aconselhou aqui - pois a liberdade de ser é o maior de todos os bens - e siga sempre a sua intuição, voz interior sábia que se deve aprender a escutar. Que ela te guie em todos os momentos durante e após a sua vida.


Beijos,


mamãe.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Da moral nazista

                                                                    Família Goebbels


DA MORAL NAZISTA


Há quem acredite que as ideias de Hitler e a alta hierarquia da SS nasceram com eles. Mas elas são mais próprias ao ser humano do que se pensa, e não se restringem hoje aos grupos skinheads ou jovens neo-facistas. Conheço pessoalmente alguns cientistas brilhantes, realmente brilhantes e destacados em vários países do mundo, que falam em “medidas” para diminuir o sofrimento do homem moderno, que vão desde a manipulação de genes para eliminar doenças “desnecessárias” (questão ética a se pensar) até a castração e morte de indivíduos e/ou raças que tragam transtornos maiores e “atrasos” à humanidade.

Num primeiro momento, a questão das ideias nazistas poderá lhe repudiar, já que você, homem/mulher médio ocidental, foi bombardeado com filmes, documentários e todo o tipo de mensagens norte-americanas que revelam apenas uma face do nazismo – muitas vezes, deturpada na essência. Há apenas um pequeno número de documentos que revela de fato do que se tratavam essas questões, como o lúcido documentário Arquitetura da Destruição, além de documentos verídicos deixados pelos membros alemães.

Óbvio que genocídios de nenhuma espécie se justificam, ainda que as mortes sejam num número muito inferior do que anunciam os aliados. Estudar a fundo de onde vieram essas ideias, dentro de uma prática científica rigorosa, pode fazer com que você até entenda como tantos homens e mulheres de raro brilhantismo se renderam a elas. Falo de cientistas, arquitetos, artistas que revolucionaram o conhecimento sobre as raças, o ser humano e a existência, com estudos premiados mundialmente, e que acreditaram que poderiam, sob o comando do premiadíssimo militar Adolph Hitler, construir uma nova humanidade isenta de doenças hereditárias de toda a espécie – o que significava, de início, a castração de certos civis alemães. Importante lembrar que o alemão médio desconhecia a morte e tortura de judeus, ao contrário da igreja católica: a informação era de que aqueles trens amontoados de gente paravam em campos de trabalho forçados, para o bem da Alemanha.

A ideologia nazista não se tratava, como afirma torpemente o senso comum, de criar um exército de homens e mulheres de olhos e cabelos claros; tratava-se de tornar real o mundo perfeito com que todos já sonhamos um dia. Pergunto quem já não idealizou, em algum momento, um lugar livre de toda a sorte de sofrimentos físicos, com homens e mulheres de intelecto e corpos mais ágeis e sagazes? Em algum momento, todos já cogitaram isso – familiares e portadores de doenças hereditárias graves, pessoas com simples déficits de atenção ou atletas de toda a espécie sujeitos a testes de anti-dopping. Se analisarmos os documentos de Josef Mengele, "o anjo da morte" de Auschwitz que se refugiou secretamente no Brasil, encontramos descobertas extraordinárias sobre rejuvenescimento, fortalecimento e estudos das raças, ainda que tenha custado a vida e os órgãos de centenas de judeus. As crianças que sobreviveram aos experimentos, muitas delas gêmeas, contam que Mengele era gentil, lhes oferecia doces e procurava anestesiá-los. Havia piedade em Mengele, mas era preciso sufocá-la em prol do futuro da raça humana, imune a todas as fraquezas; o nazismo era religião.

Era do mundo perfeito que se tratava o mundo de Hitler – mas e os judeus com isso? Quando pensamos no holocausto, o que nos chega são filmes com alemães altos, fortes e sádicos – e o filme-síntese de Spielberg, não por acaso judeu americano, tem sua história centrada no campo de concentração de Amon Goeth, justamente o maior psicopata dentre os altos membros alemães. Claro que essas pequenas deturpações são compreensíveis, sobretudo nos Estados Unidos, terra natal de alguns dos judeus mais poderosos da história em Wall Street. E devemos lembrar que o trabalho desses homens sacrifica, todos os dias, a vida de milhares de pobres civis, salientando que penas graves não justificam outras. A morte do ideal nazista deu lugar a outro tão cruel quanto: a do mercado desregulado, que após o desaparecimento de Hitler, ninguém foi capaz de desafiar. (Ironicamente, a NASA dos Estados Unidos reaproveitariam secretamente os resultados das experiências grotescas que tiveram judeus como cobaias). Mas as razões que levaram a Alemanha a desafiar o poderio dos judeus, o que ela vivia naquele momento, e o homem que era – e representava – Adolph Hitler não pode ser esquecido, sob pena de termos mortes e torturas insandecidas sem explicação, e as coisas não são assim.

Quando Hitler subiu nos seus primeiros púlpitos, já era um homem admirado por toda a Alemanha, e não sem justificativa. Ao contrário dos grandes políticos que estamos acostumados a ver, dispostos a beneficiar-se com enriquecimento e todo o tipo de vantagens, Hitler representava aquilo que mais defendia em discursos. Homem de hábitos simples, soldado, havia sido um sem-número de vezes premiado por bravura, tendo arriscado a vida em combate para salvar companheiros. Esses ocorridos registram seu rígido código moral – disciplinadamente seguido, como manda um bom alemão - até o fim da vida. Aqueles que o nazismo elegeu para os altos cargos também o seguiram, e foram capazes de morrer por essas ideias, o que no mundo ocidental de hoje soa impensável. Magda Goebbels, mulher de um dos membros cruciais do nazismo, não só morreu junto com o marido e o regime, como foi capaz de pentear, vestir e depois envenenar cada um dos seus seis filhos.

A crença religiosa na moral de Hitler começou muitos anos antes, quando a Alemanha de dívidas, inflacionada, percebeu que mais de 50% dos seus cargos administrativos pertencia a judeus alemães. Os números eram alarmantes. Crescia o ódio ao povo eleito, não apenas pela hegemonia do poder econômico, mas pela crença na ausência daqueles valores morais que o regime tanto salientava. Dizia-se que judeus vendiam-se a qualquer preço, tanto quanto os ciganos – e essas foram as raças que Hitler prometeu aniquilar. Ciganos e doentes mentais foram tão perseguidos quanto judeus, mas aos Estados Unidos isso não importa nos contar. A amoralidade parecia a Hitler uma doença hereditária quanto qualquer outra, cujos genes que habitavam essas raças (como se isso fosse possível) deveriam ser exterminados. O processo da purificação humana não passava somente por um embelezamento e fortalecimento físico-psíquico, mas sobretudo pela obediência cega a uma moral incorruptível. Numa era em que pessoas e princípios são leiloados todos os dias, a moral nazista naturalmente ganha clamor entre grupos diversos, ainda que os fins mais grotescos justifiquem os meios.
Hoje observo cientistas trazerem à tona a questão da purificação da raça, o fim de todas as limitações humanas, descortinando possibilidade infinitas; mas a que preço? Pedem que consideremos friamente o futuro da humanidade, isento de todas essas dores que assistimos nos noticiários. “Não considere indivíduos”, dizem, “mas a história de milhões que hão de vir!” Castrando pessoas e depurando genes, eliminamos a esquizofrenia, os doentes bipolares, ou mesmo uma simples miopia, alegam eles. Mas como não pensar em indivíduos, se dentre os judeus nasceu Cristo ou mesmo um Franz Kafka, e com eles um legado tão belo, tão rico que foi eternizado na nossa história? Importante lembrar que Kafka, poucos anos antes, já deixara em sua obra as marcas da dor que o autoritarismo do Estado, da Universidade ou do próprio pai podem causar. O escritor morreria poucos anos antes do regime ser decretado - e jamais sobreviveria a ele -, o que levou ao assassinato de toda a sua família. No mundo perfeito dos cientista-nazistas, seriam aniquilados todos os Kafkas, Fernandos Pessoas e os Van Goghs que hão de vir, por doenças mentais que eles mesmos lhes dariam nome. Certamente também eu seria privada de procriar, por certa hereditariedade que carrego, e começo a imaginar esse “admirável mundo novo” asséptico de tubos de ensaio, em que os olhinhos risonhos da minha bebê de 11 meses nunca teria existido.

E falando em ideologia nazista, como não lembrar dos regimes totalitários de hoje? Como não lembrar daqueles que defendem Cuba como modelo de vida, ainda que Fidel Castro castre (sobrenome sugestivo!) milhares de indivíduos, os torture e mate em nome do bem comum? Eu tremo diante daqueles que pregam em nome do bem alheio, a começar pelos próprios pais; tremo diante daqueles que sabem "o que é melhor para você". Alguém disse certa vez que todo ditador teve uma mãe à altura; a psicanálise nos lembra o quanto a infância e os pais são cruciais na formação do ser. É nesse momento que o gene do nazismo nasce e é injetado no DNA de milhões de crianças. A cada vez que elas desenham nas paredes, quebram louça fina e sujam o chão, volto a acreditar na humanidade novamente. O Cristo polêmico dos evangelhos apócrifos pregava entre os discípulos que, a certa altura, é preciso odiar os seus pais – naturalmente, para se tornar um indivíduo. Provavelmente por isso esses evangelhos permanecem banidos pelas religiões cristãs. O caminho cego das ovelhas começa desde o nascimento, e seus pastores são muitos: autoridades da escola, da religião, do estado, da família, até que ao indivíduo não reste mais a opção de escolher, porque ele sequer reconhece essa necessidade. E antes que os nazistas do mundo percebam, não restará mais humanidade para manipular. Somente o exército frio e limpo do mundo de Huxley.


domingo, 7 de outubro de 2012

Mais um conto fantástico...



O menino e o louco




Quando o menino viu a loucura de perto, ele já sabia, porque as crianças sempre sabem tudo de antemão; ele já sabia, só não sabia explicar o que aquilo era. Estava perdido no campo, onde não havia nada, para onde quer que olhasse. Como se a razão houvesse fugido pela terra seca, sem mato, sem rumo. Então lembrou que precisava encontrar a casa da avó.

Sempre que fazia verão, mesmo que no inverno, o menino ia de trem para a casa da avó. O trem era tão rápido e a casa de pedra, tão monumental e antiga, e havia uma parreira que lá de cima derramava sua sombra, depois que ele voltava da piscina natural de água fria. Havia também o pão de forno da avó, havia a avó e outras avós emprestadas ao lado, todas esperando por ele com doces nos vidrinhos. Tudo isso ele tinha para mostrar às outras crianças, mas faltavam as crianças, porque adulto, adulto ele pensava que nenhum brincava mais. Até o dia em que ele conheceu o homem louco do outro lado do campo.

Mas eu vou começar a história do começo: um dia o menino resolveu subir o monte, porque queria alguém para brincar. Foi assim que começou. Ele já conhecia as gêmeas, umas menininhas loirinhas, cabelos encaracolados, com vestidinhos iguais; duas meninas que brincavam como meninos, brincavam de verdade. Eram uns três anos mais novas que ele, e as únicas crianças que existiam ali. Mas para chegar na casa delas, tinha que subir o monte e passar por umas plantas espinhentas, muita pedra, até chegar onde não havia mais verde, nem casas e nem nada, só o casarão das gêmeas que a natureza esqueceu. O menino já havia estado ali, porque quando se é criança e se está sozinho, acaba-se descobrindo tudo, tudo. Ele lembrava que havia uma mãe, loira como elas, que mandara-as entrar e tomar banho. A brincadeira acabou, e foi a primeira e última vez que ele viu as gêmeas.

Agora a casa estava mais velha, empoeirada. Uma casa grande assim, tão suja!, se aproximou. As florezinhas infantis, outrora desenhadas na fachada da casa, quase que desapareceram. O portão azul estava entreaberto, e o menino entrou sem culpa. Parecia não haver ninguém. Pegou a corrente enferrujada solta e com ela uniu as duas partes do portão, também enferrujadas. Quando entrou na casa, notou que tudo se duplicava: eram dois os portões azuis, duas as marionetes de cada tipo, os brinquedos, pincéis e as telas iguais, espalhadas. E tudo por fim se repetia em infinitos espelhos, pedaços de reflexo colados nas paredes encardidas, por toda a parte, sempre em números pares. Também havia flores de papel duplicadas, pinturas alegres esmaecidas, mãozinhas de tinta vermelha cor-de-sangue – seria sangue? - e um cheiro de solvente que contaminava o ar. Parecia uma casa ideal para uma criança brincar, e logo depois ir embora – refletiu o menino, no meio daquele caos de cores e sujeira. Ninguém viveria ali.

Notou que na casa não havia teto, apenas telhas que permitiam os morcegos à noite e todo o tipo de insetos e pássaros pela casa, que mais parecia um grande armazém velho. Então ouviu risinhos do quintal. Entraram as gêmeas e um homem, que rapidamente recuou, sem que o menino pudesse identificá-lo. As gêmeas o cumprimentaram timidamente, pareciam tão assustadas quanto ele, que se desculpou por haver entrado sem pedir. Anestesiadas, as meninas não reagiam, ele envergonhado quis ir embora, quando notou que o homem o vigiava atrás da pilastra – e num só gesto, escondeu o rosto novamente. Que homem estranho!, pensou, considerando-se um homem, não um menino ou um palhaço. Tinha os cabelos grisalhos compridos, despenteados e amarrados como os de uma mulher; tinha a barba por fazer, dentes e unhas escuras, bastante alto e magro, e sendo tão magro, a pele sobrava-lhe no rosto, como as rugas da avó. As meninas estavam inertes, como se já reconhecessem a situação e os movimentos do homem. Ele repetira o gesto, agora numa nova pilastra, aproximando-se dele como de uma presa. O menino estava entre o medo e o riso, sem saber definir.

- O que faz aqui? - perguntou, cantarolando agudo. Deixava mostrar o rosto fino, para enxergar melhor o menino. O menino com medo tentou se explicar, mas o homem se movimentava tão rapidamente, que parecia não se interessar pela resposta.

- Desculpe ter entrado - disse baixinho, recuando em direção à porta. Então o homem, com um pulo à sua frente, impediu sua saída, como se tivesse aparecido na frente dele por magia.

Lembrou que as gêmeas gabavam-se, enquanto brincavam com ele, de ter “um pai mágico”, que conseguia desaparecer e reaparecer, quando não queria receber uma visita ou ouvir a mãe falar. “Nosso pai é artista”, orgulhavam-se, apresentando isso como argumento para alguém se dissolver no ar. O menino não sabia se acreditava naquelas histórias, mas tinha medo delas.

- Quem é você? - perguntou o mágico. Nunca um adulto havia falado assim com o menino, como se ele fosse adulto também, olhando-o nos olhos sem desviar. Agora entre ele e a porta, o homem o examinava arfando, prestes a comê-lo. O menino já não mais acreditava em criaturas que existiam unicamente para devorá-lo, mas por um momento, elas se reavivaram.

O homem repetiu a pergunta. Para dissimular o temor, o menino começou a se perder em explicações sobre a casa da avó, o caminho da casa da avó e a própria avó; é quando dizemos muita coisa ao mesmo tempo porque, na realidade, não temos nada a dizer. E o homem olhava os movimentos da sua boca, como se importasse mais a boca do que o que saía dela. E então deu uma gargalhada inesperada. E eram daquelas gargalhadas de olhos bem abertos, que assustariam qualquer menino. Deu meia-volta e ordenou que as gêmeas se vestissem como o combinado, para mostrar ao menino que tipo de brincadeiras eles faziam. O menino queria ir embora, mas sabia que era tarde demais para pedir isso. As gêmeas obedeceram prontamente, de cabeça baixa. Havia algo de triste no jeito delas andarem e olharem, que não antes quando brincaram. Já estavam os três no quarto a sós - as gêmeas trocavam a roupa com ansiedade -, mas nem fizeram menção de brincar com o menino naquele momento, ou depois. Ele perguntou pela mãe, e soube que ela as havia abandonado. Era uma mãe má, porque não as levou com ela, disseram. Fantasiaram-se com roupas escuras estranhas, muito maior do que o seu tamanho - provavelmente pertencentes a uma mulher, pensou o menino. Pareciam dois balões. Nesse instante, o homem as chamou impacientemente.

Continuou dizendo ao menino que ia lhe mostrar como é que eles brincavam na casa, mas ele não entendia que brincadeira era aquela; brincadeira é quando podemos ser o que queremos, escolhemos o figurino, o lugar, o tema, tudo – mas o homem é quem decidia pelas filhas, e isso não é brincar. Tinham que virar estátuas, brincadeira que o menino até gostava, mas por pouco tempo, senão doíam as pernas. Enquanto isso, o homem à frente pintava algo no cavalete, e ordenava outras estátuas, e outras e outras, que as meninas obedeciam sem pestanejar, nem olhar para o pai.

Nesse dia o menino chegou tarde à casa da avó, já estava escuro e ela bradou com ele. Mas ele nem se importou, pois a mente ainda estava na casa do louco, só o seu corpinho tinha vindo para dormir; pensava em um jeito de ajudar as amigas, mas não sabia como.

Com o tempo, o menino passou a visitar o casarão todos os dias, e ficou surpreso como às vezes loucos podem ser divertidos. Ele fazia umas performances malucas, vestido com roupas estranhas, maquiagem colorida e uma cartola, e provocava as crianças para que corressem pela casa com ele, imitando os seus gestos; os quatro riam-se muito juntos. Depois que ele jogava tinta nas crianças, recolhia-se para desenhar sozinho - e a elas era permitido usar as cores que quisessem pela casa. O menino achou incrível, porque quando tinha três anos e pintou numa parede do quarto a sua família toda feliz em lápis de cera, os pais não sorriram nem um pouco. Já com o louco, não havia restrições para criar as mãozinhas, bonecos, flores e aves das crianças; a casa se transformava em uma grande floresta azul-amarela-multicolorida. A única exceção, e isso as meninas lhe advertiram bem, era à enorme escultura de gesso coberta por um lençol num canto da casa. Não poderia ser tocada, sob pena de surra e outras torturas.

Quando ficavam juntos no quarto, as gêmeas lhe apresentavam brinquedos muito velhos e baratos – sinal de que há anos não ganhavam presentes dos pais, e que Papai Noel nunca existiu. No faz-de-conta delas, eram professoras ou mães que sempre mandavam que os ursinhos obedecessem, senão levariam surra ou seriam mortos. Não podiam se mexer, diziam, sob pena de serem mandados embora da escolinha ou da casa dos papais-ursos, e morreriam tristes e sozinhos.

Mas as brincadeiras acabavam de uma hora para outra, quando o louco reclamava que a casa estava muito bagunçada e que ele agora queria comer. Uma delas corria para a cozinha e a outra com o saco de lixo catava tudo pela casa. O fogão era alto e a menina usava um banquinho de três pernas para cozinhar, que o menino tentava equilibrar para que não queimassem seus cabelos, que tinham a mesma cor do fogo. Depois da cozinha as crianças tinham direito a uma pequena parte, que as deixavam quase sempre com fome, mesmo com os doces que o menino trazia escondido da casa da avó, e que elas guardavam numa caixinha dentro do armário sem porta. Nessa mesma caixinha, estavam algumas das cartas que a mãe lhes escrevia, quando não eram interceptadas e queimadas no quintal pelo pai. As gêmeas não sabiam ler, pois quando estavam começando a juntar as letrinhas na cartilha, o pai não permitiu que fossem mais à escola; deveriam servir a ele como modelos para sua arte e domésticas para sua casa. Ao perceber a limitação delas, o menino leu-lhes algumas cartas. Todas diziam que o pai maltratava a mãe, que foi necessário fugir dele, e que buscava emprego para que pudesse levá-las para viver com ela. Não sei se as crianças acreditaram na mãe – seus olhares tristes pareciam ter banido a esperança de tudo que existe -, mas o menino encorajou-as a acreditar que sairiam dali.

O máximo permitido fora de casa eram os estranhos passeios que a família fazia, como seguir o louco e a linha do trem, até chegar no túnel branco por onde ele passava. Levavam tintas e decoravam as paredes do túnel, com o louco pulando e cantarolando, enquanto esperavam o som do trem cantar nos trilhos, para saírem correndo. O menino pensou que a avó não gostaria disso; se a avó se aborrecia quando o menino chegava sujo de tinta e comida, imagine se soubesse que um trem de verdade – não aqueles de brinquedo que ele tinha – poderia devorá-lo em um segundo se tropeçasse?

Sempre que o louco voltava do túnel, dizia estar “inspirado” - numa espécie de fome para pintar e esculpir tudo -, em que um só minuto não poderia ser desperdiçado, sob pena da musa, mulher invisível e impaciente, ir-se embora. Então todos se vestiam e o louco maquiava as crianças como adultos. As roupas e pinturas faciais das gêmeas tinham de ser sempre iguais, e até mesmo as posições, em que ambas olhavam-se estáticas, uma como reflexo do espelho da outra. O menino, que geralmente só observava, também foi incluído nas brincadeiras certo dia; o homem pintou-o com batom vermelho, lápis nos olhos e vestia apenas uma tanga no corpo. O menino dizia que não queria aquilo, mas o louco gritou que estava na casa dele e que crianças devem obedecer aos adultos – embora o menino não o visse como um adulto - e que o mataria com esse estilete aqui se ele não obedecesse. Depois sorriu, como se ameaças de morte fossem tão divertidas quanto um sorvete.
Eram muito tristes os momentos em que a mulher inspiradora invisível chegava, porque ela excitava a loucura do louco. Às vezes um deles não aguentava permanecer estátua, ou uma das meninas queria sair dali para ir rápido ao banheiro, mas o pai não deixava. Num desses dias, passada meia hora, a menina chorosa afirmou que não aguentava mais de vontade, e o louco gritou que se calasse, aguentasse e não sujasse o chão. O menino, que posava no meio das gêmeas simetricamente dispostas, fantasiado de algo que não era nem homem, nem mulher – assim como as fantasias que o próprio louco usava -, tocava de leve o ombro da menina e dizia baixinho que ia passar, ia passar, mesmo sabendo que vontade de xixi não passa. Quando o louco terminou de esculpir as três miniaturas, o líquido amarelado se esparramou pela sala e a menina chorou de verdade, enquanto o louco ordenava aos gritos que limpasse a imundície que ela fez.

Nesses dias, as gêmeas choravam baixinho até fechar os olhos, enquanto o menino acariciava-lhes os cabelos na cama. Depois do dia do xixi, o menino jurou que salvaria as gêmeas do louco, mesmo sem saber como.

P.S.: O final do conto, só no livro O Homem da Eternidade, a ser publicado muito em breve...até lá!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Filosofando das cinzas...

Faz muito tempo que não publico o que escrevo. Faz muito tempo que não escrevo. Ando atrofiada. As idéias vêm, mas em tempos de depressão, mau-estares da gravidez e apatia, impossível realizá-las. Não, não sei produzir apesar da dor; não sei sangrar como o pássaro de Wilde, para fazer nascer uma rosa. Preciso estar deslumbrada: Uma certa dose de contentamento, Deus, para que volte a escrever contos e filmes! Talvez essas letras digitadas aqui agora, nesse meu antigo blog, ajudem.

Isso é que dar ler somente "os grandes cânones da literatura": quase nada presta, quase nada é possível. Contemporâneos? Hunf, dou de ombros! É um preconceito estúpido, eu sei. Eu bem sei o que é a estupidez.

Então se eu escrevo - e quando escrevo -, eu guardo. Como se fosse uma multa grave, uma raiva que não passa. É preciso aceitar que nunca escreverei como Borges; até porque, até onde sei, eu não sou ele.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"VELHO BRUXO SMETAK"

(Reportagem-biografia publicada no jornal "Correio", em 2005, quando então eu era repórter especial de la. Saudades. Daqueles tempos e de Smetak - um dos maiores genios artisticos e visionarios que o mundo ja presenciou...)




Sons do Silêncio

Júlia Lima

Depois daquele dia, a quietude da igreja barroca de São Francisco jamais seria a mesma. E seus visitantes também não. Dizia-se que um velho desconhecido, que arrancara as teclas do próprio piano, tiraria sons de ímãs e captadores do instrumento em pleno altar. Nada mais inventivo. Curiosa, a juventude rebelde dos anos 70 aguardava, ingenuamente, mais um concerto experimental no Festival de Música de Ouro Preto; mas ninguém imaginava tamanha ousadia. Nos primeiros acordes do órgão elétrico, o som foi tão assustador que fez as pipocas pularem dos saquinhos. Ao mesmo tempo, o velho fez vibrar paredes, vitrais e lustres da igreja, abalando as estruturas da fé. Parecia o anúncio do apocalipse, com o teto prestes a desabar sobre as cabeças pagãs. Desesperados, todos saíram correndo da igreja. Apenas alguns hippies permaneceram, estáticos, a observar as façanhas do velho bruxo. Dias depois, eles ainda guardariam as sequelas da experiência ensurdecedora, que ironicamente pretendia fazer vibrar o silêncio.

Após a estranha reação física, igreja e público se mantiveram de pé, embora visivelmente abalados; afinal, ninguém nunca saía impune após um contato com o velho Walter Smetak. Repercutida na mídia nacional a sua fama de bruxo, louco, gênio, o compositor suíço daria boas risadas com o episódio dias depois. Claro que se a intenção fosse derrubar templos sagrados ou profanos, sua acurada pesquisa sobre sons possuía subsídios para isso; mas todos aqueles decibéis, agudos e sem nenhuma afinação, pretendiam derrubar unicamente os velhos costumes ocidentais, criando uma nova forma de percepção. Com ruídos, soluços e estranhos agudos de instrumentos criados por ele mesmo, Smetak acreditava que poderia educar as multidões para ouvir o silêncio, os sons interiores da mente, assim como os de outras dimensões ocultas. “A percepção audível do ser humano vai muito mais além do que a ínfima parte que pode ser computada, tanto para os graves como para os agudos”, escrevera.

A ambição de ampliar a consciência do homem nasceu quando ele chegou ao Brasil, em 1937, e travou contato com a religião-ciência da eubiose, corrente brasileira da teosofia ligada às escolas iniciáticas orientais. Chegando em Salvador na década de 50, com a formação de um músico europeu tradicional, Smetak foi ser professor de violoncelo na atual Universidade Federal da Bahia (Ufba), e aqui se deparou com a riqueza cultural e religiosa da região. A partir daí, fez outra grande descoberta: a de que o lado irracional do homem precisava vir à tona. “Smetak usava o irracional o tempo todo. Na academia, você é só cérebro, e o homem é a interseção entre os dois. Ele buscava o caminho do ser”, explica o músico Marcos Roriz, seu ex-aluno.

Outorgando a si mesmo essa ambiciosa missão, ele abandona a música erudita e seus fins estéticos, para se dedicar unicamente às causas espirituais. À noite, o estudo das religiões hindus e da eubiose era repassado a anônimos no terraço de sua casa, reforçando seu caráter doutrinador; durante o dia, Smetak habitava os porões da universidade, onde montou sua oficina, para consertar e desenvolver instrumentos a partir de cabaça, sucata e tinta. “”Ele acreditava que qualquer um poderia fabricar o seu próprio instrumento, aproveitando tudo que a natureza oferecia””, conta a filha Bárbara, uma das cinco “”sementes vivas nas terras do Brasil””, nas palavras de Smetak.

Estudando os instrumentos mais primitivos da humanidade, ele cria as “plásticas sonoras”, dando cores e formas à natureza do som. Essas esculturas-instrumentos simbolizavam aspectos esotéricos, a origem da vida, do mundo, a grandeza do infinito, criando interseções entre ciência, filosofia e religião. Tanta beleza e riqueza de formas rendeu a Smetak diversos prêmios e participações em bienais do Brasil e do mundo, pela singularidade em fundir tão bem duas artes tão distintas quanto a música e a escultura.

Mas ao tocar seus instrumentos, Smetak e seus discípulos produziam sons que quase nada tinham a ver com música; eram tão pouco melódicos, tão estranhos, que não pareciam pertencer a esse mundo. E seu compositor também não. Ele mesmo não se considerava músico, mas um “alquimista de sons”, um misto de cientista louco, gênio e artista, relegado ao mundo subterrâneo da universidade. Era um marginal na arte e na vida, um desvio, um maldito dentro da escola de música, repleta de professores europeus engomadinhos e convencionais. “Ele não se adaptou jamais à burocracia da universidade, e era até constrangedor vê-lo com uma caderneta de frequência debaixo do braço”, escreveu o maestro Lindembergue Cardoso.

Logo que Smetak chegou, a Ufba e a Bahia viviam sua “era de ouro”, com professores de todos os cantos do mundo, e um clima mais propício para as experimentações. Mas depois de muito experimentar nas aulas de violoncelo, desafinando instrumentos e desprezando partituras, o colegiado resolveu nomeá-lo professor de improvisação. “Smetak buscava compreender o equilíbrio dentro do caos, atingindo a mais perfeita e absoluta ordem”, filosofa o professor Oscar Dourado, seu monitor na época.

Todas as manhãs, adentrava a universidade com o costumeiro mau humor, em uma velha moto BMW preta, chamada por ele de “Prostituta da Babilônia”; era admirado pelos alunos mais pirados, fumava cigarros que ele próprio enrolava, usava sandálias velhas, suspensórios e roupas puídas. “É preciso aprender a ser pobre”, ele dizia, despido de pretensões mundanas.

Como professor da Ufba, Smetak travou conhecimento com grandes nomes da música, que foram inspirados e influenciados diretamente pelo seu trabalho, como Tom Zé, Gilberto Gil e Caetano Veloso – que produziu seu primeiro disco, Smetak, em 1974. Tempos depois, ele lançaria seu segundo e último LP, Interregno, praticamente desconhecido pelo grande público.

Sem nenhuma divulgação, apoio financeiro ou mesmo bolsa para suas pesquisas, Smetak não esmoreceu. Deixou inúmeros projetos irrealizados, como a de uma Universidade Livre, voltada para os estudos do esoterismo, arte, filosofia e ciência – elementos que também estariam presentes em suas plásticas sonoras, livros e idéias. Escritor obssessivo, deixou milhares de páginas sobre esoterismo, eubiose, composições musicais, poesias, peças teatrais – a maioria jamais publicados -, além de ter criado mais de 150 instrumentos de cordas, sopro e percussão, dando origem a uma verdadeira orquestra smetakiana.

Sua obra obedeceria eternamente ao ritmo compulsivo da criação, se eterna fosse a sua estadia nesse mundo. Mas aos 71 anos de idade, Smetak partiu para as dimensões ocultas, deixando incontáveis sementes em terras brasileiras. “Sou como a própria natureza, crio em abundância, presenteio os homens e as mulheres, e prefiro não cobrar nada”, declarou.

Estranha mistura

Desde muito cedo, Anton Walter Smetak fascinou-se pelos mistérios do som. Com 2 ou 3 anos de idade, costumava colar os ouvidos na mesa, para ouvir na madeira as vibrações da cítara tocada pelo pai. Filho de um músico e uma cigana checos radicados na Suíça, Smetak nasceu de uma estranha mistura, envolvendo os gens da arte e do esoterismo, da técnica e da intuição, tudo isso somado à sua personalidade inquiridora de menino.

Mas por volta de 1913, ano do seu nascimento, a vida em Zurique não dava vazão à curiosidade infantil; os estudos eram feitos em internatos rígidos, e a educação doméstica era controlada pela mãe com mãos de ferro. O pai, afeito às atividades mais lúdicas, encorajava-o a seguir a carreira musical e tocar cítara. Anos depois, ele se desapontaria quando o filho, por amor a Bach, escolheria o piano. Depois de um acidente com as mãos e muitas desavenças com o pai, Smetak passa a dedicar-se ao violoncelo e, em 1929, ingressa no Conservatório de Zurique. De lá, ele continua seus estudos na Academia de Música e Arte Dramática “Mozarteum”, na Áustria.

Até então, ele era mais um músico europeu de formação rígida e tradicional, e o elo perdido entre o jovem e o velho Smetak, tão contrastantes entre si, parecia infinito. Mas já havia nele uma grande curiosidade pela natureza da música, menos no aspecto estético, do que na forma como ela nascia, se desenvolvia e morria, no eterno ciclo das escalas musicais executadas pelos instrumentos. Para saciar tanta curiosidade, seria preciso desmontar cada violoncelo, abrir cada piano, observando a vibração das cordas, para penetrar no lado obscuro das caixas de ressonância. E assim, Smetak passou a faltar às aulas do conservatório para frequentar oficinas de lutiers, conhecendo o fino artesanato dos instrumentos musicais. Sempre habilidoso com trabalhos manuais, ele não demorou a perceber que levava jeito para a coisa.

Solos nos trópicos

Ao mesmo tempo, consagrou-se como um bom violoncelista, participando de orquestras e fazendo solos em Zurique. Mas as delícias da fama, na década de 30, viriam juntamente com as dores da guerra. Ao ser confundido com um alemão nazista, Smetak recebe certa noite uma pedrada na cabeça, em plena rua. O episódio precipitaria sua vinda para os trópicos, mais precisamente Rio Grande do Sul, a convite de Grunsky, seu professor de violoncelo. “Ele fugiu da guerra. Era careta, medroso, tinha medo de ser recrutado”, conta João Santana Filho, jornalista e amigo de longa data.

Chegando ao Brasil em 1937, o jovem Smetak era apenas um menino; trazia consigo sua nova esposa alemã, Maria Agnez, uma copista de escalas musicais. Dizia-se que era mulher dominadora, e tinha a idade de sua mãe; algo que Freud explicaria bem. Tempos depois, a diferença de idade contribuiria para o fim do casamento, em 1959.

Trabalhando na orquestra das rádios de Porto Alegre, Smetak foi convidado para lecionar violoncelo no Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Estava bem estabelecido na região, e o choque cultural parecia ser pequeno, numa terra onde a colônia de alemães e suíços crescia a olhos vistos. Mesmo assim, existia perseguição aos alemães nazistas na região, e com a dissolução das orquestras, Smetak decide excursionar como músico pelo resto do país.

À época, tocou em boates do Rio e São Paulo, no famoso Cassino da Urca, e chegou mesmo a integrar a orquestra de Carmem Miranda, como um anônimo ilustre. Nas horas vagas, dava prosseguimento às atividades de lutier, estudando eletrônica e criando um microfone de contato para piano. Por falta de recursos financeiros, ele acaba desistindo de patentear a invenção anos depois. Além das atividades de luteria e orquestra, Smetak ainda encontrava tempo para compor. Até a primeira metade da década de 50, já reunia 13 peças para piano e três para violoncelo de cordas, que viriam a ser executadas nas rádios de Zurique. Entre elas, está a famosa obra O malandro assobiando, para violoncelo e orquestra.

Rupturas

Mas se as partituras do período mostram, aparentemente, a trajetória de um músico europeu tradicional, nas entrelinhas se percebe que uma grande transformação estava sendo gestada, literalmente, no interior de Walter Smetak. Amigos contam que uma doença grave acometeu-o no Brasil, com sintomas semelhantes a um fogo percorrendo-lhe o corpo. À época, Smetak e os médicos não compreenderam bem o fenômeno; anos depois, ele qualificaria o período de quase-morte como uma espécie de iluminação, um chamado. “Foi quando ocorreu o primeiro momento de ruptura na vida dele”, explica Santana Filho.

Após se recuperar da doença, Smetak encontraria no misticismo todo o bálsamo para sua dor, e assim entenderia melhor o que o acometeu. Foi quando criou laços definitivos com a eubiose, religião apresentada por um amigo músico, em São Paulo. Sua presença nas reuniões ministradas pelo mestre José Henrique de Souza – fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, em 1924 – tornou-se freqüente. A partir da eubiose, Smetak saciou sua personalidade inquiridora, encontrando explicações para a existência, a natureza do tempo, do mundo, a partir de ensinamentos milenares vindos do Oriente. A proposta da “religião-sabedoria” era unir fé e ciência, intuição e razão, incentivando os questionamentos e discursos de seus membros na construção de um novo homem e um novo mundo.

Imerso nesses ensinamentos, Smetak incorpora-os em sua arte, dando os primeiros títulos de caráter esotérico às suas composições musicais. Nessa época, ele recebe um convite do maestro Hans Joachim Koellreutter para lecionar nos Seminários de Música da Ufba, em 1957. A chegada à Bahia, mais do que uma simples mudança de cidade, de cultura ou de costumes, foi a segunda grande ruptura em sua vida. Mas ele ainda não sabia disso.

Flertes de génio

Era um músico europeu tradicional, que contava um violoncelo, composições próprias e uma boa experiência. Mas isso não serviria de nada se Smetak não trouxesse consigo, ainda latente, uma grande curiosidade pela vida. Graças a ela germinariam, nos porões da academia baiana, todas as centenas de pesquisas, instrumentos e livros sobre misticismo; e se a natureza já lhe parecia abundante para criar, a diversidade da Bahia era o solo ideal para Smetak semear suas ideias.

Na academia, nas ruas, a Bahia da década de 50 cheirava à coisa nova: artistas e professores de várias partes do mundo, trazidos pelo reitor da Ufba, Edgard Santos; obras e exposições inovadoras, influenciadas pelas vanguardas européias; uma grande quantidade de cinemas, peças teatrais e uma rica vida cultural na cidade. Inserido nesse contexto, Smetak flertou com a música moderna, e assistiu a concertos como o do professor Koellreutter, em 1961, sobre música concreta – movimento europeu cujas composições eram feitas a partir de sons cotidianos pré-gravados. Encantado com a apresentação, ele foi incubido de criar novos instrumentos para esse novo tipo de música. Eis aí um outro chamado. “Naquela vez, alguma coisa vindo do abstrato se fez de concreto”, recordou ele.

E assim germinaria a oficina Smetak. Enquanto pesquisava e construía novos instrumentos, ele utilizava sua criatividade também em sala de aula. Atitudes como destampar o piano, reafinar o violoncelo, apagar a luz da sala e abandonar as partituras, passaram a se tornar comuns. A idéia de Smetak era incentivar seus alunos a criar espontaneamente, unindo o conhecimento à improvisação e intuição. “”À época, a formação do músico era toda convencional, de tocar escalinhas. Smetak tinha um outro discurso, desejava abrir um espaço para que o instrumentista desse sua própria contribuição””, explica Oscar Dourado.

Experiências radicais

Se nas aulas de violoncelo a ousadia era grande, ao ser renomeado professor de improvisação, Smetak se permitiria fazer experiências ainda mais radicais. Entrava na sala de aula com os bolsos cheios de pedras, depositava-as no chão, e ordenava: “Hoje vamos transformar essas pedras em música”. Era dado o desafio. Alunos como Tom Zé, o flautista Tuzé de Abreu e o maestro Fred Dantas não esquecem de momentos assim, em que descobriram fazer coisas de que nem imaginavam ser capazes.

Mas a inventividade, a liberdade para criar deveria acontecer para os alunos dentro de certos limites. Era comum ver Smetak interromper ensaios com rompantes de agressividade, quando os alunos não davam o resultado esperado, contrastando ousadia com rigidez. “Ele me botava para fora da sala, quando eu não dava conta”, lembra Roriz, sorrindo.

Esses rompantes ajudaram a consagrar sua fama de gênio indomável dentro da Escola de Música. Embora fosse respeitado no meio, devido à sua criação, suas idéias, Smetak era para muitos um maluco. Mas ele não se dobrava. Dizia que louco vinha de “loco”, que significa “no lugar”; o resto da humanidade é que estava deslocada para ele.

Ao mesmo tempo, Smetak era bastante anti-social, homem de poucos amigos. “Ele era muito grosseiro, dizia o que vinha na cabeça. Era meio infantil, até”, conta Tuzé. A presença de Smetak, com seu mau humor solitário, o andar deselegante – “parecia um urso”, compara o flautista -, chegava a amedontrar alguns alunos. E professores também. Certa feita, ao chegar na cantina da escola, onde todos os dias tomava seu café e fumava demoradamente, ele recebeu, junto com outros professores, um convite para participar de um congresso de música contemporânea. Resmungando, ele logo recusou o papel, já que nem sequer se considerava um músico. Para amenizar, os colegas disseram que sua presença seria importante, como contemporâneo deles. Mas Smetak não pestanejou: “Contemporâneo, não, eu estou a 50 anos na frente!”, bradou ele. E deu as costas.

Para reforçar ainda mais a fama de outsider, Smetak vivia e criava solitariamente. Passava boa parte do tempo na oficina, e mal aparecia em casa. Nessa época, ele morava no bairro da Federação, e havia se casado com uma negra bastante popular no bairro: Julieta. Compartilhando as mesmas crenças na eubiose, ela trazia amigos e conhecidos para suas reuniões, ajudando Smetak a disseminar suas idéias. Entre idas e vindas, alegrias e tristezas, contra todos os preconceitos raciais alheios, Julieta o acompanharia até o fim de sua vida.

Mas os filhos não entendiam bem tanta devoção à eubiose, ao trabalho, e sentiam muito a falta do pai. Tempos depois, já adulto, o filho caçula Uibitú – nome criado por Smetak, em referência ao To be or not to be shakesperiano -, tornaria-se violinista, e entenderia melhor o desejo obsessivo de criar do pai. “Apesar de tacharem ele de louco, ele era muito sério. Acreditava piamente no que fazia, em cada pincelada. Esse era seu maior valor: sua crença no que fazia”, conta Uibitú.

Pai antiquado

Fiel ao que acreditava, Smetak não incentivava os filhos a irem à escola. Dizia que o estudo deveria ser auto-didata, e que as coisas mais importantes para se aprender estavam do lado de fora da sala de aula. Ao mesmo tempo, adotava regras rígidas, era um pai antiquado, preocupava-se exageradamente com os filhos. Não permitia que as garotas namorassem, pouco dialogava, pouco ria. Era um homem extremamente sério, ainda que na intimidade do lar.

Ao mesmo tempo, esse jeito esquisito de ser fazia sucesso entre os jovens mais ousados da escola de música. Smetak despertava a curiosidade dos alunos mais bicho-grilos, por usar a mesma calça jeans, as mesmas sandálias velhas que eles, montado na mesma moto BMW preta. Embora não partilhasse o gosto pela música contemporânea – era radical a ponto de só gostar de Bach e tolerar Stravinsky – era comum ver adeptos da música popular baterem na porta da sua oficina, para que ele consertasse seus violões. Dias depois, como excelente lutier, Smetak devolvia o instrumento novinho em folha, em geral sem cobrar nada.

E enquanto fazia as vezes de lutier, ele prosseguia o trabalho com o som. Foi convidado para musicar uma montagem teatral de Macbeth, e gravou a trilha sonora dentro de uma caixa d´água. Durante o processo, ele criou o seu projeto mais desejado, que o acompanharia por toda a vida: o OVO. A idéia era introduzir dentro da sua Universidade Livre, que obedeceria arquitetonicamente a forma do sistema solar, um estúdio oval de 22 metros de altura, com água e microfones em seu interior, e completamente vedado. Assim não haveria mais defasagem de som entre instrumento e ambiente, fazendo com que ele circulasse por vários espaços sem reverberação. Infelizmente, o projeto OVO – “”síntese e complemento de todas as minhas pesquisas””, segundo Smetak -, jamais conseguiria financiamento para ser executado.

Microtons

O projeto ganhou forma quando, ao deixar um violão secar no varal, Smetak ouviu suas cordas serem tocadas pelo vento. Ouvindo com atenção a caixa acústica do instrumento, Smetak pensou em reproduzir as variações de sons mais sutis contidas ali dentro. “Ao passar por essa incrível experiência, fiquei ciente da vida das frequências contidas em intervalos mínimos”, descreveu Smetak. Foi daí que nasceu sua pesquisa sobre microtons, subdivisões quase imperceptíveis dentro de um intervalo de meio tom, e que são praticamente desconhecidas na tradição da música ocidental. “A música normal é o sistema tonal, baseado nos acordes maiores e menores. A pesquisa de Smetak veio romper com essa tradição”, conta Oscar Dourado.

Envolvido com a pesquisa dos microtons, Smetak cria seis violões, cada um dos quais com seis cordas iguais, e convoca seis músicos para tocá-los. Funda assim o Conjunto dos Mendigos – composto por músicos como Gil, Tuzé e Rogério Duarte. A idéia era habituar o público com as variações sutis dos microtons, para que pudessem ouvir outros sons menos perceptíveis no mundo físico, integrando-se completamente à natureza. Mais uma vez, Smetak utilizava a arte como elemento transformador. Não era à toa que ele, adepto de neologismos e trocadilhos, referia-se aos instrumentos que criava como instrumentos, uma forma de instruir mentes; a idéia era exatamente essa.

Decompositor contemporâneo

Das árvores baianas, ele descobriu a cabaça, fruto que seria utilizado em boa parte dos seus instrumentos. Sua forma ovalada simbolizava para ele o mundo, a Terra, o OVO de onde surgiu a vida; nela Smetak criou dois furos opostos – os hemisférios norte e sul -, e colocou uma casca de coco do lado de dentro, e uma corda de violão do lado de fora. Por fim, o círculo da cabaça foi “cortado” ao meio por um cabo de vassoura, simbolizando as primeiras subdivisões biológicas, ou a forma do pênis introduzido na vagina, dando vida ao som. “O braço é a configuração do eixo do mundo, girando em sua volta, e o céu, o arco que passa na corda”, explicou ele. Um instrumento tão rico em simbologias, ressuscitado a partir de pesquisas sobre os contatos mais primitivos do homem com o som, não poderia, em sua riqueza, carregar outro nome que não fosse “o mundo” (1968).

Depois de pronto, esse instrumento lhe proporcionaria outras descobertas. Da cabaça que sacia a fome dos nordestinos, Smetak criou o chori, “instrumento que nem chora, nem ri; apenas soluça”, segundo ele. Introduzindo novas cabaças na parte superior, ou mesmo cortando-as pela metade, Smetak criou uma verdadeira família de choris – choris sol e lua, violino, violoncelo, viola, baixo, choris com caixa de ressonância, entre outros. Nesta fase tão frutífera para ele, o essencial era construir instrumentos baratos, de fácil acesso para as populações mais carentes. “Se alguém quiser construir futuramente um instrumento com cabaças, que plante as sementes e não as jogue fora, que coloque as sementes na terra”, ensinava.

Além da natureza, Smetak incorporava aos instrumentos materiais recicláveis, objetos encontrados na rua, realizando assim uma arte bastante comum no período do Dadaísmo – movimento iniciado na Suíça, em 1915, que buscava questionar os valores, a arte convencional acadêmica, e a própria arte em si. A ponte entre Smetak e o Dadaísmo – cujo lema é “Destruição também é criação” -, pode ser explicitada, ainda que inconscientemente, em uma das afirmações polêmicas de Smetak: “”Sou um decompositor contemporâneo””.

Conhecimento milenar

Além dessas referências européias, Smetak descobriu, a posteriori, o quanto seus instrumentos se assemelhavam aos da antiga cultura hindu, africana e indígena brasileira. Em todos eles, percebeu que o simbolismo da forma é quase tão importante quanto o som. As formas dos seus instrumentos, até então, não possuíam cores; tempos depois, a descoberta das tintas, a partir de mentalizações visuais eubióticas, daria um novo colorido à sua arte. Surgiriam plásticas como Vir a Ser, IEAOU, Amén e Imprevisto, cujas cores, formas e sons encontravam uma simbiose perfeita. E o mundo da arte acabaria reconhecendo esse valor, em 1967, ao conferir-lhe o Prêmio de Pesquisa na I Bienal de Artes Plásticas da Bahia, que o projetaria nacionalmente numa exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). Durante a Bienal baiana – na qual Smetak expôs por insistência de um aluno -, seu curador, o artista plástico Juarez Paraíso, encontraria uma eterna denominação para as suas criações: plásticas sonoras.

O nome não poderia ser melhor aplicado, visto que entre as obras expostas, constavam algumas que nem de longe eram instrumentos musicais, e sim esculturas – formas de ver e perceber o som. Era o caso de Andrógino, figura de barro cozido que simbolizava a ambiguidade entre homem e mulher, duas polarizações de um todo; e também Enamorados abstratos, S.O.S situação e Cravo da Bahia, esta última uma plástica feita com as cordas de um piano, em referência ao escultor e amigo Mário Cravo (1969).

É nessa fase que ganha vida aquele que Smetak considerava o seu instrumento mais genial: a vina. Com nove meses para ser concluída, Smetak a considerava uma filha. Feita de molas de relógio, sinos, arames, três cabaças e bambu, a Divina Vina simboliza diferentes tricotomias, como a das divindades indianas Shiva-Vishnu-Brahma, ou mesmo a transformação-superação-metástase, postulada pela eubiose. Dentro estão contidos uma harpa e dois sinos chineses, dando origem a um som semelhante ao violoncelo, ou, a depender da chave de registro – a “alma” do instrumento – recriando sons orientais. Para tocar a Divina Vina, seria necessário todo um ritual, com o músico virado de costas para a platéia, vestindo uma capa com máscaras que representam a tricotomia indiana.

Para além dos rituais que o músico de Smetak deveria seguir, ele ainda deveria dividir com outros músicos o mesmo objeto. Instrumentos coletivos como pindorama, a grande virgem e apitos, expostos em 1970, possuíam muitos braços e mangueiras, e todos disputavam espaço para soprá-las. Em verdade, os músicos deveriam abandonar todas as pretensões, todo o ego, para criar uma arte em equipe, tendo o instrumento como fator de transformação.

No ramo individual, os músicos já poderiam contar com outra modalidade: seus instrumentos cinéticos. Como as mais recentes pesquisas de Smetak sobre a acústica musical buscavam o som contínuo, a partir da repetição do ciclo das notas, ele criou instrumentos arredondados, como a ronda e “os três sóis”; a depender da velocidade, o tocador poderia ouvir diferentes sons, e seu efeito contínuo é hipnotizador – transportando, de fato, tocador e ouvinte para uma outra dimensão. Com a ronda, instrumento em forma de uma ampulheta deitada, símbolo do infinito e do tempo, Smetak descobriu que o ritmo, a melodia e a harmonia dependem da velocidade do giro. Era a velha fórmula matemática do movimento-espaço-tempo, despertando a consciência através do som.

Arte espiritual

Mesmo debruçando-se sobre essas pesquisas, Smetak nem por um momento deixou a eubiose. Ao examinar sua obra, percebe-se que a religião era para ele uma proposta, um fim, e a arte era apenas um meio de dar vazão a ela. “A arte espiritual deve penetrar totalmente na vida do homem, transformando-o num ser superior em quem se processará a criação artística espontânea e na qual a idéia será permanente”, postulou. Com o fim do grupo de Sexteto de Violões, e o fracasso fonográfico do LP Smetak, ele acaba recolhendo-se ainda mais para estudar a eubiose. Intensifica sua produção de textos esotéricos, e lança o livro O retorno ao futuro – O retorno ao espírito (1981), único do gênero a ser publicado. Sua produção de textos, que ainda incluem poesias abstratas e e peças de teatro, seria encerrada com o livro A simbologia dos instrumentos, onde ele analisa todas as suas plásticas sonoras.

Nessa época, Smetak já se encontrava completamente só. Havia se separado de Julieta – de quem se tornara um grande amigo -, para viver um romance com Cristine, uma jovem belga. Com o retorno dela ao exterior, ele conhece as dores e delícias de sofrer por amor na velhice. Já havia passado o tempo de se aposentar, e Smetak não sabia lidar com as questões práticas da vida; além do que, tinha dificuldade para ler documentos, já que estava com catarata. Mas a cegueira não impediria que ele corresse com a sua motocicleta, os faróis queimados, pelas ruas da cidade. Ainda enxergava longe.

Última oitava

Smetak, tak, tak. A sonoridade de seu nome, bem observada pelo amigo Gilberto Gil, mostra que o tempo, como os ponteiros dos relógios suíços, não pára. E mesmo sendo “conhecedor” da eternidade, buscando as variações infinitas dos sons, Smetak sabia que todo ciclo tem um fim. E o seu já havia completado a oitava nota, o oito que simboliza o infinito, para então recomeçar a escala musical. Mesmo sem vestígio algum de doença, Smetak intuiu que era hora de se despedir da vida. Retornou às suas raízes na Suíça, visitou pela última vez os filhos e a ex-mulher, e naquele dia afirmou que não iria mais voltar. E nunca mais voltou. Pelo menos até agora.

Nos últimos anos de vida, tudo o que tinha era uma visão bastante comprometida, o que não lhe impedia de enxergar além das coisas da vida. Dirigia sua moto praticamente cego, sem nunca ter se acidentado; um mistério que nenhum médico conseguia explicar. Visitas aos consultórios, providências com aposentadoria e outros problemas mundanos foram assumidos pelo amigo João Santana Filho, que o abrigou em sua casa. No fim da vida, Smetak era um pobre velho que não tinha onde morar, cada vez mais solitário, mais saudoso diante da separação da última mulher. “Ele morreu de amor”, conta Santana Filho.

Devido ao excesso de cigarro, Smetak passou a ter crises constantes de falta de ar. Assim como sua arte, a fumaça era também um vício do qual ele não admitia se livrar. E assim ele fumaria, escreveria e esculpiria até os últimos dias de vida; até que o aparecimento de um enfisema pulmonar, nada muito grave, obrigou os amigos de Smetak a interná-lo. Com o apoio de Julieta, Gilberto Gil, Santana Filho e outros amigos, foi conseguida a vaga na Fundação José Silveira, uma referência na época. Mas quis o destino que ele contraísse ali uma infecção hospitalar, morrendo logo em seguida.

Nova era

Felizmente, Smetak já havia se despedido de quase todo mundo. À família, confidenciou que retornaria à Terra no ano de 2005, para cuidar de sua obra. Não por acaso, ele compôs uma plástica sonora e uma composição denominada M 2005; para Smetak, este era o ano de uma nova era, um marco na transformação do homem na Terra.

Esse novo homem, uma sub-raça que prevaleceria sobre as demais, surgiria em terras brasileiras, após um maremoto de proporções gigantescas – uma espécie de apocalipse eubiótico. Desde crianças, seus filhos acostumaram-se com a idéia de um tsunami brasileiro, e viviam temendo que ele acontecesse. Sabiam que o litoral brasileiro engoliria todo o resto do país, e apenas sobreviveriam os seres mais evoluídos. “Salve-se quem souber, porque poder, ninguém poderá mais”, profetizava Smetak. Esse novo homem, como ele pressentiu numa visita à Amazônia, seria dotado não só de inteligência, como de uma acurada intuição.

Enquanto esse dia não vem, amigos e parentes de Smetak consideram benéfico o fato de ele ter partido deste mundo. No Brasil de hoje, na era da indústria cultural, da banalização da arte e da vida, muitos acreditam que Smetak não sobreviveria. “Ele seria avesso a tudo isso”, acredita Oscar Dourado. Mas mesmo nos melhores momentos, o alquimista sempre foi avesso ao resto do mundo. Não se encaixava em nenhum padrão, não fazia parte de nenhuma corrente artística específica; até mesmo sua obra, uma confluência de quase todas as artes, é quase indefinível. E mais indefinível que ela, só o próprio Smetak. “”Ele me dava a sensação de um misto de cientista louco e Papai Noel de província; misto de chefe religioso severo e ameaçador, e velho manso conselheiro, de farta cabeleira branca e porta sempre aberta aos curiosos do Antique e do Mistério””, arriscou-se Gil.

Árvore frondosa

Tantos homens, formas de arte e crenças numa só pessoa faziam de Smetak uma árvore frondosa de infinitos galhos, raízes, braços que tentaram abraçar o mundo. Deixou incontáveis sementes na Terra, escritos em folhas de natureza morta, plásticas sonoras vivas, que vibram ao menor toque das mãos. Colecionou pinturas, poesias, peças teatrais, cinco filhos e muitos amigos.

Reunidos após a sua morte, em 1984, eles fundaram a Associação Amigos de Walter Smetak – idéia de João Santana Filho -, com a intenção de divulgar e preservar sua obra. Mas o tempo que tem o poder de unir as pessoas, é o mesmo capaz de separá-las. Passadas algumas décadas, com o grupo mais disperso, tem sido difícil manter viva a alma de Anton Walter Smetak. Seus instrumentos, depois de circularem pela Escola de Música, foram depositados no terceiro andar da Biblioteca Central da Ufba, em 1986, junto com seus livros, manuscritos, folhetos e fotos. Desde então, família e membros da Associação vêm lutando para encontrar um novo espaço para a memória de Smetak. “As , quando vêem os instrumentos, ficam loucas para tocar, mas na biblioteca não tem espaço, e é preciso fazer silêncio”, reclama a filha Bárbara.

Nos últimos anos, Gilberto Gil, através do Ministério da Cultura, vem demonstrando interesse em criar um espaço para o Memorial Smetak. O projeto foi elaborado minuciosamente pela Associação, mas devido a problemas de caráter financeiro, ainda não saiu do papel. Enquanto isso, as plásticas sonoras de Smetak vão se deteriorando, perdendo a cor e a vida. Ao visitar o acervo na Ufba, testemunha-se um globo terrestre murcho, algumas cabaças quebradas, e muita falta de manutenção. A Ufba afirma que faltam verbas para mantê-los; e sem as condições climáticas adequadas, na última leva de vento na janela, muita coisa de Smetak se perdeu.

Para amenizar a dor da família, sua obra vem sendo visitada por pessoas de todos os cantos do mundo, e no início do ano, o flautista Tuzé viajou com seus instrumentos para tocar no Música em Março, um festival experimental em Berlim. Lá assistiu-se a uma grande improvisação coletiva, que com certeza Smetak teria apreciado. Ou apreciou.

Além do exterior, existem no Brasil músicos experimentais que reclamam a influência de Smetak. É o caso do Uakti, grupo liderado por um ex-aluno seu dos Seminários de Música, Marco Guimarães. O grupo mantém viva a busca incessante de Smetak por novos tipos de som, utilizando tubos, instrumentos instrumentos com água, arcos e plásticas sonoras do velho mestre.

Mesmo em grupos experimentais como o Uakti, percebe-se que ninguém criou uma obra tão visceral, e ao mesmo tempo com ideais tão nobres e gigantescos como os de Walter Smetak. Por ser uma figura tão singular, tão estranha, ele não deixou sucessores; era único.

Muitos dizem que morreu decepcionado com o mundo, o que não seria improvável. Alguém para quem o calendário era desenhado em milênios, a cabaça representava o mundo, Mozart era um Cristo e a lua era oca, não poderia jamais ser compreendido pelos homens; parecia-lhes loucura. Seus ideais de elevação da alma humana, numa era considerada por ele como tão imediatista, tão voltada para o estar em detrimento do ser, eram impossíveis de se realizar num só tempo. E Smetak sabia disso. Para que fosse atingido o ápice da evolução, seriam necessários milhões e trilhões de anos, algo inimaginável para os homens de hoje, incapazes de apreender o tempo. “Precisamos de uma inteligência muito maior do que a que temos agora”, profetizou ele. Mesmo projetando o mundo à frente do seu tempo, Smetak deixou plantadas na Terra as suas sementes, sonhando com o dia em que os homens se transformarão em seres divinos. Nesse dia, não mais haverá homens, corpos ou mentes. Apenas os sons do silêncio.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Considerações sobre o tempo

Faz tempo que não visito esse blog, um espaço que já foi tão meu... Mais de um ano -, calculei agora. Ao mesmo tempo, revendo-o, parece que foi há um minuto atrás que o deixei. As lembranças do que sentia ao escrever aqui emergiram com tanta força, que revivi tudo agora como se o tempo não houvesse passado. Sim, o tempo é uma ilusão, dizem os cientistas - e corrobora a física quântica moderna. A questao, para alguns misticos, seria que nós insistimos em viver nele, ou melhor, limitamo-nos a isso, pois a mente humana não concebe a complexidade das coisas em tantas dimensões distintas. Por outro lado (e sao infinitos os "lados", embora nao os percebamos), nos podemos sentir que não há tempo algum; que lembrar-se é mais uma forma de trazer a tona velhas vivencias para o AGORA. A ciência diz que a mente nem sequer pode distinguir entre passado e presente: durante a recordação (ou a imaginação), tudo é vivido e sentido novamente, ou seja: ativam-se os músculos de um nadador mesmo quando ele esta parado, imaginando-se (ou recordando-se) nadando no mar.

O próprio mar - retornando novamente a ele, "relembrando" os posts mais antigos -, é uma metáfora do tempo e da vida, posto que a vida é movimento. Nada poderá ser como antes - nem mesmo o que afirmam ser Deus. Para aqueles que afirmam que O Todo, (ou Deus, "Senhor", "Pai" ou como queiram representa-lo) é a unica coisa imutável no universo, outros pensadores argumentam que essa grande consciencia está a todo momento revivendo o êxtase da sua própria recriação - a partir de nós e do mundo. Ou seja: a velha maxima "a única coisa que não muda é a mudança" e de fato verdade. Tudo esta fadado a mudar, a todo instante. E visto que a mudança é apenas uma abstração - e no fim, assim são todas as coisas -, então nada permanecera inalterado. E isso é o que torna a vida ainda mais bela e, paradoxalmente, mais dolorosa!...:)