sábado, 5 de julho de 2014

Os Nomes das Coisas



Os Nomes das Coisas
Para Sophia de Mello Breyner Andresen


Os nomes das coisas
se inscrevem
reconditamente
num grande e pesado livro de couro escuro
letras pequeníssimas
da bula das bulas dum antigo elixir
inexprimíveis
sonho sem imagens
pena e tinta jamais percebidas.


Os nomes das coisas
cunhados pelas bocas anônimas
foram perdidos
na noite dos tempos invernais
de um país muito longe
sem história
por aquele que desconfia
nunca haver existido.

Os nomes das coisas
inserem-se misteriosamente
no casco interno das árvores
entre os seios fartos de uma moça
na noite do vôo de uma coruja 
desfazendo-se
no andar das nuvens
de um deus
que não se quer conhecido.

Os nomes das coisas
não possuem final ou meio
que a existência compreenda.
Ondas de sons
que vagueiam
no vácuo
formam o mar da palavra
uma palavra
oculta, impronunciável
A palavra
que se mata para alcançá-la
que faz morrer e enlouquecer
quem a ousa professar.


sábado, 4 de janeiro de 2014

Dois dos melhores poemas de Walt Whitman





                                          "Symbiosis", de Roberta Carvalho



PLENO DE VIDA AGORA

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)





VI UMA AZINHEIRA QUE CRESCIA NA LOUISIANA

Vi uma azinheira que crescia na Louisiana,
Aí estava, só, e o musgo pendia dos seus ramos,
Aí crescia, sem um companheiro, e oferecia alegres folhas verde-escuro,
E o seu aspeto rude, inflexível, robusto, fez-me pensar em mim,
Mas admirei-me que fosse capaz de dar folhas como essas, tão só que estava, sem um amigo junto a si: eu sabia que não podia fazer o mesmo,
Arranquei um pequeno ramo com algumas folhas e à volta entreteci um pouco de musgo,
E levei-o e coloquei-o bem à vista no meu quarto,
Não preciso dele para lembrar-me os amigos queridos,
(Pois sei que ultimamente quase só penso neles,)
Mas é para mim um símbolo curioso, faz-me pensar no amor viril;
Apesar disso, e embora a azinheira resplandeça na Louisiana, solitária na grande planície,
Oferecendo sempre alegres folhas, longe de um amigo ou de um amante,
Eu sei muito bem que não podia fazer o mesmo.



Tradução de Gentil Saraiva Junior.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A mais bela carta de amor já vista...

Carta de Lewis Carroll para sua pequena amiga Gertrude Chataway

Gertrude Chataway foi a mais importante criança que o escritor Lewis Carroll teve como amiga. O poema A caça ao Snark, inclusive, é dedicado a ela e aberto com um acróstico com seu nome. Biógrafos de Carroll, conhecido por escrever Alice no país das maravilhas, revelam que ele conheceu a garota quando ela tinha apenas 9 anos e que, desde então, os dois mantiveram uma amizade que se estendeu até a vida adulta. Meio estranho? Espere até ler a carta.

“Minha querida Gertrude, você vai ficar admirada, surpresa, desolada ao saber que terrível indisposição eu senti quando você partiu. Mandei chamar um médico e lhe disse: ‘Dê-me um remédio contra o cansaço porque eu estou cansado’. Ele me respondeu: ‘Nunca! Você não precisa de remédio! Se você está cansado, vá para a cama!’ ‘Não’, repliquei, ‘não se trata desse tipo de cansaço que passa quando se deita. Eu estou cansado no rosto.’ Ele ficou muito sério e depois disse: ‘Sim, estou vendo, é seu nariz que está cansado; e isso acontece por que você mete o nariz em tudo’. E eu respondi: ‘Não, não é bem o nariz. Talvez tenha sido um gole de ar’. Então ele fez uma expressão de espanto e disse: ‘Agora estou entendendo: naturalmente você tocou muitas árias em seu piano’. ‘De forma nenhuma, protestei. Nada de árias, mas de alguma coisa que fica entre o meu nariz e o meu queixo’. Aí ele ficou muito sério e perguntou: ‘Ultimamente você tem andado muito com seu queixo?’ Eu disse: ‘Não’. ‘Bem!’ disse ele, ‘isso me preocupa muito. Não sente alguma coisa nos lábios? ‘Claro!’ exclamei. É exatamente isso que eu sinto!’ Então ele ficou mais sério do que nunca e disse: ‘Acho que você andou dando muitos beijos’. ‘Bem’, respondi, ‘na verdade eu dei um beijo numa menininha que é muito minha amiga.’ ‘Pense bem’. disse ele, ‘você tem certeza de que foi somente um?’ Eu pensei bem e disse: ‘Talvez tenham sido onze’. Então o doutor respondeu: ‘Você não deve dar nenhum beijo até que seus lábios tenham descansado bastante’. ‘Mas o que devo fazer’, repliquei, ‘se ainda estou devendo a ela cento e oitenta e dois beijos?’ Nessa hora ele ficou tão triste, mas tão triste, que as lágrimas começaram a rolar em seu rosto. E ele disse: ‘Você pode enviálos numa caixa’. Então eu me lembrei de uma pequena caixa que eu havia comprado em Dover, pensando em poder um dia oferecê-la a uma menininha. Por isso é que eu lhe envio essa caixa depois de ter colocado nela todos os meus beijos. Diga-me se eles chegaram bem, ou se algum se perdeu pelo caminho.”

sábado, 7 de setembro de 2013

Menina que brilhava


(trecho inicial do novo conto)
Garimpo, Carybé




Mariá nem era Mariazinha, era Mariiinha, mesmo e já era sabida, buliçosa que só ela e não é que encontrou pedra, pedra graúda? E aquilo era brilho, era brilho. Mariinha que não fazia nada que prestasse, parecia menino quando corria suja de terra, se enfiava nos buracos, descalça e nem camisa botava, era só a boca de sujeira seca no canto, cabelo bichinhado e sei que mexia e botava a mão onde não podia. O olho, o olho era mais estranho que luzia, ninguém nunca viu ali no interior aquela cor brilhando dentro do olho, cor de pedra. E o cabelo era marrom queimado, daquele sol que se acabava na estrada de chão e fogueava tudo, amorenando menino, areia vermelha de sol que desmaiava povo de fora do interior e caía tudo duro no chão. Mariinha era danada igual menino, Mari-inha, a gente chamava, que nem a mãe entendia como se era isso, só chamava Mariá e pronto, mas o resto chamava assim.

Um dia Mariinha viu uma coisa que brilha e muito graúda, parecia tesouro, coisa que ladrão e garimpeiro não se via e se leva de uma vida para ver. As gentes do garimpo, o pai dela, eles todos fazia de um tudo pra encontrar e bem que tentasse uma pedrinha nos rios, um brilhozinho de pedra, mas foi a menina buliçosa com outro menino da Ponta que viu, quis pegar e não deu, que chegou gente no cavalo e foram embora. E era brilhante e era escondido e sujo de terra, mas brilhava era muito, muito dinheiro. O pai que não acreditava, a mãe ralhou e fez pouco, mas os meninos dizia que tinha pedra brilhante do outro lado do rio, tinha, sim, e que luzia de arder olho de menino. O pai pegou foi a pá de lixo enferrujada, nem tirou o lixo de cima e deu surra em Mariinha que sujou a casa toda. Era para Mariinha parar de falar mentira do que não viu e não andar se enfiando pelos matos, que aquilo lá era coisa de menina, menina ajuda é a mãe em casa, menina faz é bolo igual às irmãs faz, que dasse de comer pra os patos que era uma fome só, lavar a pia, que a casa, aquilo tava uma imundície. Mariinha chorou e limpava o chão e chorava, limpando e chorando e ficou uns dias que não queria ver o pai que não podia.

E ela foi ajudando a mãe, ficou foi muito tempo sem ver o menino da Ponta, que também queria voltar e pegar a pedra mais ela e vender e ficar rico, os dois. Era ir pra o outro lado e pegar a pedra, entrar na fazenda velha que ninguém ia, os meninos miúdos se arrastando por debaixo da cerca pra o arame não cortar, junto daquele hospital que o pai foi quando ficava doente de rim. Se Mariinha atravessasse rio, virasse vento, pulasse cerca de fazenda que o pai deixasse, ela pegava aquele tesouro e dava pra pai e mãe, porque pai e mãe é o que vale na vida, isso é que é. O resto ela dava era pra o povo dali que até a água de beber tinha secado, mais de três anos que não tinha nem verde, nem nada, uma luta pra achar uma manga de pé, era só folha seca que se pisava e chegava estalar de tão seca. Na Ponta também tava assim, o menino dizia, faltava o tudo que não tinha, não tinha pra quem desse.

domingo, 18 de agosto de 2013

Flores raras para inglês ver






O título Flores Raras, novo longa do diretor Bruno Barreto, faz jus à sua proposta estética: é o retrato "raro" do Brasil caricato para inglês/americano ver. Já no início, vemos imagens tipo cartão postal do Rio de Janeiro, ao som de Copacabana, ou outro clássico manjadísimo da bossa nova cantado em inglês-português, e parece que estamos diante da propaganda de algum órgão de turismo do Rio de Janeiro. Quaisquer semelhanças entre essa opção estética de Barreto e a de seu outro filme, Bossa Nova, não são mera coincidência.

Os planos pouco imaginativos do Rio, na verdade, vêm do olhar de uma estrangeira com a sensibilidade da grande poetisa americana Elisabeth Bishop e por isso mesmo, deveriam ser menos lugar-comum. Mas o Brasil tipo exportação não é o único problema. Quase todo o filme de Barreto peca pelos excessos e falta de sutileza e o roteiro entrega o ouro já nos primeiros minutos. Não só o Brasil de Barreto é mastigado, mas as atuações, as falas, a narração, tudo é didático e peca pelos excessos. Os atores dizem tudo o que pensam, sem que haja espaço para a dúvida, a dissimulação e a ambiguidade em nenhum momento. Eles entram em cena e “anunciam” o que sentem e pensam, o que aconteceu ou está para acontecer. Ao fim, o filme é feito de sketches, blocos que contam fatos marcantes reais da vida das personagens, às vezes sem muita conexão uns com os outros. Durante o rompimento com Bishop, por exemplo, Lota entra em depressão e vai parar num hospital psiquiátrico, sem que o espectador acredite, porque o roteirista em nenhum momento “planta” anteriormente uma cena em que a atriz esteja mal, soando inverossímil – principalmente pelo fato do acontecimento ter sido também anunciado pela boca de um personagem. 

Há algumas críticas da mídia especializada à atuação da lésbica “macho” de Glória Pires – no papel de Lota, paisagista brasileira com quem Bishop tem um caso no Brasil – e embora seja uma atriz admirável, também se perdeu na caricatura em algumas cenas. Não sei se seria o caso de culpá-la, pois quem regula a intensidade das emoções é o diretor e não sabemos se ele pediu isso dela.

Os poucos momentos verossímeis são as belas cenas eróticas em que ambas as atrizes principais se entregam verdadeiramente ao papel. Os planos solitários da atriz australiana Miranda Otto, que vive Bishop, escrevendo e buscando inspiração, sua relação com a natureza tropical e exuberante na casa de Lota em Petrópolis, transmitem muita veracidade. Percebe-se que essa relação entre a atriz e aquele mundo “exótico” existiram de maneira genuína – com o Rio mostrado de maneira menos óbvia que as cenas da capital.. A atuação comedida e verdadeira de Miranda Otto, que vive Bishop, são o grande trunfo do filme, ainda que o roteiro mal escrito obrigue-a a dizer ao público, com todas as letras, que é reservada - e não deixe que ele perceba isso na personagem, subestimando-o. São muitos os problemas de roteiro e direção, que não compensam as belas cenas do olhar e dos gestos de Miranda, com a mata atlântica ao fundo e o som de uma boa trilha sonora.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Poema existencial

POEMINHA DO SER


Se eu me dobrar por dentro
sendo o que eu sou
haverei de me perder
do que nunca fui eu.

Se enrolará o grande novelo
que de mim fará o estar em mim
voltando a ser
o que sempre será um.

E na essência de tudo o que há
me faltarão palavras e ideias
na cabeça dentro da grande cabeça
que tudo concebe.

Um poema, involuntariamente, no estilo Whitman

 
       Pedra em homenagem a Walt Whitman, EUA


(Poema publicado na antologia portuguesa Entre o Sono e o Sonho, lançado em março de 2013, no Cassino Estoril, pela Chiado Editora).


DESNUDAMENTO

Quando me expando nas planícies
em todas as relvas
e me deito, lânguida e preguiçosamente
quando flutuo no mundo
e pairo e pairo
sobre todos os homens
mulheres, velhos de boa fé
todas as crianças de mim
quando sobrevôo as criaturas
pensamentos, ruídos de gente e mato
quando sou cada coisa
cada dia, cada sonho
perdido e sombrio
cada arena dura de sangue
quando me estendo nos riachos
todos os riachos
(e sensíveis são os riachos, porque os sinto)
quando sou todas as águas
todos os mares de espuma
todas as formas
quando sou muito além de mim
infinitamente sendo
paradisíaca mulher nua
quando sou tudo o que é
eu sou
eu sou.

domingo, 25 de novembro de 2012

CARTA ABERTA À BEATRIZ


Bia querida,


Nem parece que já faz um ano que a mamãe te viu pela primeira vez...Você foi de longe a melhor coisa que já me aconteceu, e confirmo isso nos seus olhinhos todos os dias. Que você nunca esqueça o quanto a sua mãe e sua família te amam, ainda que às vezes, num futuro próximo, possa parecer que não.

No dia do seu primeiro aniversário, poderia mencionar uma quantidade de bênçãos infinita, porque infinito é o amor que lhe tenho. E ao contrário do que parece, o que importa não é tanto ser amado, mas sobretudo amar, como ensinou o mestre Tolstói. E o amor de mãe é de uma força assustadora.

Te desejo não só o privilégio de um dia ser mãe, mas sobretudo de ser amiga daqueles que lhe são caros; e que você também tenha sempre ao lado os amigos corajosos e fiéis do Victor Hugo.

Que você mantenha sempre essa espontaneidade linda, essa imprevisibilidade lúdica das crianças e animais; os homens se rendem a elas, por havê-las abandonado sem perceber. Surpreenda sempre os outros e a si mesma, lembrando que você só é o que decide ser – e isso pode ser feito a qualquer momento. O tempo de mudar quem você pensa que é é sempre agora.

Importante, filha: não intelectualize demais a vida, sob pena de perder-se do seu próprio corpo e instintos naturais. Lembre-se sempre que você é a natureza – e Deus, ou os fios que te ligam a ela, são a parte mais nobre do seu ser. Haverá quem mostre amarguras e ceticismos, mas jamais se deixe levar por eles. Deus é uma experiência pessoal e intransferível, à qual é um privilégio vivenciar; e só você saberá o caminho que te levará às suas origens.

Também não se deixe levar pelos hábitos alheios da maledicência, de qualquer tipo. Se você respirar fundo, sentirá que a existência é bela e sábia, ainda que algumas pessoas não a tenham percebido. Observe calmamente o mar, as montanhas e rios; dê a si mesma sempre essas meditações, para calar a tagarelice tola da mente. No silêncio está a verdadeira sabedoria.

Você verá que os anos passam, filha, e envelhecer é tornar-se inflexível, intolerante ao novo. Tente não possuir muitas convicções arraigadas, porque são elas que possuem aos homens. Alguns valores morais são importantes, mas de resto, esteja sempre disposta a se surpreender. Essa é a verdadeira juventude.

E por fim, esqueça tudo o que a mamãe te aconselhou aqui - pois a liberdade de ser é o maior de todos os bens - e siga sempre a sua intuição, voz interior sábia que se deve aprender a escutar. Que ela te guie em todos os momentos durante e após a sua vida.


Beijos,


mamãe.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Da moral nazista

                                                                    Família Goebbels


DA MORAL NAZISTA


Há quem acredite que as ideias de Hitler e a alta hierarquia da SS nasceram com eles. Mas elas são mais próprias ao ser humano do que se pensa, e não se restringem hoje aos grupos skinheads ou jovens neo-facistas. Conheço pessoalmente alguns cientistas brilhantes, realmente brilhantes e destacados em vários países do mundo, que falam em “medidas” para diminuir o sofrimento do homem moderno, que vão desde a manipulação de genes para eliminar doenças “desnecessárias” (questão ética a se pensar) até a castração e morte de indivíduos e/ou raças que tragam transtornos maiores e “atrasos” à humanidade.

Num primeiro momento, a questão das ideias nazistas poderá lhe repudiar, já que você, homem/mulher médio ocidental, foi bombardeado com filmes, documentários e todo o tipo de mensagens norte-americanas que revelam apenas uma face do nazismo – muitas vezes, deturpada na essência. Há apenas um pequeno número de documentos que revela de fato do que se tratavam essas questões, como o lúcido documentário Arquitetura da Destruição, além de documentos verídicos deixados pelos membros alemães.

Óbvio que genocídios de nenhuma espécie se justificam, ainda que as mortes sejam num número muito inferior do que anunciam os aliados. Estudar a fundo de onde vieram essas ideias, dentro de uma prática científica rigorosa, pode fazer com que você até entenda como tantos homens e mulheres de raro brilhantismo se renderam a elas. Falo de cientistas, arquitetos, artistas que revolucionaram o conhecimento sobre as raças, o ser humano e a existência, com estudos premiados mundialmente, e que acreditaram que poderiam, sob o comando do premiadíssimo militar Adolph Hitler, construir uma nova humanidade isenta de doenças hereditárias de toda a espécie – o que significava, de início, a castração de certos civis alemães. Importante lembrar que o alemão médio desconhecia a morte e tortura de judeus, ao contrário da igreja católica: a informação era de que aqueles trens amontoados de gente paravam em campos de trabalho forçados, para o bem da Alemanha.

A ideologia nazista não se tratava, como afirma torpemente o senso comum, de criar um exército de homens e mulheres de olhos e cabelos claros; tratava-se de tornar real o mundo perfeito com que todos já sonhamos um dia. Pergunto quem já não idealizou, em algum momento, um lugar livre de toda a sorte de sofrimentos físicos, com homens e mulheres de intelecto e corpos mais ágeis e sagazes? Em algum momento, todos já cogitaram isso – familiares e portadores de doenças hereditárias graves, pessoas com simples déficits de atenção ou atletas de toda a espécie sujeitos a testes de anti-dopping. Se analisarmos os documentos de Josef Mengele, "o anjo da morte" de Auschwitz que se refugiou secretamente no Brasil, encontramos descobertas extraordinárias sobre rejuvenescimento, fortalecimento e estudos das raças, ainda que tenha custado a vida e os órgãos de centenas de judeus. As crianças que sobreviveram aos experimentos, muitas delas gêmeas, contam que Mengele era gentil, lhes oferecia doces e procurava anestesiá-los. Havia piedade em Mengele, mas era preciso sufocá-la em prol do futuro da raça humana, imune a todas as fraquezas; o nazismo era religião.

Era do mundo perfeito que se tratava o mundo de Hitler – mas e os judeus com isso? Quando pensamos no holocausto, o que nos chega são filmes com alemães altos, fortes e sádicos – e o filme-síntese de Spielberg, não por acaso judeu americano, tem sua história centrada no campo de concentração de Amon Goeth, justamente o maior psicopata dentre os altos membros alemães. Claro que essas pequenas deturpações são compreensíveis, sobretudo nos Estados Unidos, terra natal de alguns dos judeus mais poderosos da história em Wall Street. E devemos lembrar que o trabalho desses homens sacrifica, todos os dias, a vida de milhares de pobres civis, salientando que penas graves não justificam outras. A morte do ideal nazista deu lugar a outro tão cruel quanto: a do mercado desregulado, que após o desaparecimento de Hitler, ninguém foi capaz de desafiar. (Ironicamente, a NASA dos Estados Unidos reaproveitariam secretamente os resultados das experiências grotescas que tiveram judeus como cobaias). Mas as razões que levaram a Alemanha a desafiar o poderio dos judeus, o que ela vivia naquele momento, e o homem que era – e representava – Adolph Hitler não pode ser esquecido, sob pena de termos mortes e torturas insandecidas sem explicação, e as coisas não são assim.

Quando Hitler subiu nos seus primeiros púlpitos, já era um homem admirado por toda a Alemanha, e não sem justificativa. Ao contrário dos grandes políticos que estamos acostumados a ver, dispostos a beneficiar-se com enriquecimento e todo o tipo de vantagens, Hitler representava aquilo que mais defendia em discursos. Homem de hábitos simples, soldado, havia sido um sem-número de vezes premiado por bravura, tendo arriscado a vida em combate para salvar companheiros. Esses ocorridos registram seu rígido código moral – disciplinadamente seguido, como manda um bom alemão - até o fim da vida. Aqueles que o nazismo elegeu para os altos cargos também o seguiram, e foram capazes de morrer por essas ideias, o que no mundo ocidental de hoje soa impensável. Magda Goebbels, mulher de um dos membros cruciais do nazismo, não só morreu junto com o marido e o regime, como foi capaz de pentear, vestir e depois envenenar cada um dos seus seis filhos.

A crença religiosa na moral de Hitler começou muitos anos antes, quando a Alemanha de dívidas, inflacionada, percebeu que mais de 50% dos seus cargos administrativos pertencia a judeus alemães. Os números eram alarmantes. Crescia o ódio ao povo eleito, não apenas pela hegemonia do poder econômico, mas pela crença na ausência daqueles valores morais que o regime tanto salientava. Dizia-se que judeus vendiam-se a qualquer preço, tanto quanto os ciganos – e essas foram as raças que Hitler prometeu aniquilar. Ciganos e doentes mentais foram tão perseguidos quanto judeus, mas aos Estados Unidos isso não importa nos contar. A amoralidade parecia a Hitler uma doença hereditária quanto qualquer outra, cujos genes que habitavam essas raças (como se isso fosse possível) deveriam ser exterminados. O processo da purificação humana não passava somente por um embelezamento e fortalecimento físico-psíquico, mas sobretudo pela obediência cega a uma moral incorruptível. Numa era em que pessoas e princípios são leiloados todos os dias, a moral nazista naturalmente ganha clamor entre grupos diversos, ainda que os fins mais grotescos justifiquem os meios.
Hoje observo cientistas trazerem à tona a questão da purificação da raça, o fim de todas as limitações humanas, descortinando possibilidade infinitas; mas a que preço? Pedem que consideremos friamente o futuro da humanidade, isento de todas essas dores que assistimos nos noticiários. “Não considere indivíduos”, dizem, “mas a história de milhões que hão de vir!” Castrando pessoas e depurando genes, eliminamos a esquizofrenia, os doentes bipolares, ou mesmo uma simples miopia, alegam eles. Mas como não pensar em indivíduos, se dentre os judeus nasceu Cristo ou mesmo um Franz Kafka, e com eles um legado tão belo, tão rico que foi eternizado na nossa história? Importante lembrar que Kafka, poucos anos antes, já deixara em sua obra as marcas da dor que o autoritarismo do Estado, da Universidade ou do próprio pai podem causar. O escritor morreria poucos anos antes do regime ser decretado - e jamais sobreviveria a ele -, o que levou ao assassinato de toda a sua família. No mundo perfeito dos cientista-nazistas, seriam aniquilados todos os Kafkas, Fernandos Pessoas e os Van Goghs que hão de vir, por doenças mentais que eles mesmos lhes dariam nome. Certamente também eu seria privada de procriar, por certa hereditariedade que carrego, e começo a imaginar esse “admirável mundo novo” asséptico de tubos de ensaio, em que os olhinhos risonhos da minha bebê de 11 meses nunca teria existido.

E falando em ideologia nazista, como não lembrar dos regimes totalitários de hoje? Como não lembrar daqueles que defendem Cuba como modelo de vida, ainda que Fidel Castro castre (sobrenome sugestivo!) milhares de indivíduos, os torture e mate em nome do bem comum? Eu tremo diante daqueles que pregam em nome do bem alheio, a começar pelos próprios pais; tremo diante daqueles que sabem "o que é melhor para você". Alguém disse certa vez que todo ditador teve uma mãe à altura; a psicanálise nos lembra o quanto a infância e os pais são cruciais na formação do ser. É nesse momento que o gene do nazismo nasce e é injetado no DNA de milhões de crianças. A cada vez que elas desenham nas paredes, quebram louça fina e sujam o chão, volto a acreditar na humanidade novamente. O Cristo polêmico dos evangelhos apócrifos pregava entre os discípulos que, a certa altura, é preciso odiar os seus pais – naturalmente, para se tornar um indivíduo. Provavelmente por isso esses evangelhos permanecem banidos pelas religiões cristãs. O caminho cego das ovelhas começa desde o nascimento, e seus pastores são muitos: autoridades da escola, da religião, do estado, da família, até que ao indivíduo não reste mais a opção de escolher, porque ele sequer reconhece essa necessidade. E antes que os nazistas do mundo percebam, não restará mais humanidade para manipular. Somente o exército frio e limpo do mundo de Huxley.