<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240</id><updated>2011-10-10T12:09:03.751-07:00</updated><title type='text'>A Poesia da Arte</title><subtitle type='html'>Escrevo aqui alguma coisa relativa à arte. A "poesia" do título traduz-se para mim como a inspiração, a sensibilidade e intuição de quem cria o belo, e acaba por embelezar o mundo; é como um chamado para longe, muitas e muitas léguas para dentro de si mesmo.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>17</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-1038341330754720442</id><published>2011-07-04T17:46:00.000-07:00</published><updated>2011-07-04T18:05:58.883-07:00</updated><title type='text'>Filosofando das cinzas...</title><content type='html'>Faz muito tempo que não publico o que escrevo. Faz muito tempo que não escrevo. Ando atrofiada. As idéias vêm, mas em tempos de depressão, mau-estares da gravidez e apatia, impossível realizá-las. Não, não sei produzir apesar da dor; não sei sangrar como o pássaro de Wilde, para fazer nascer uma rosa. Preciso estar deslumbrada: Uma certa dose de contentamento, Deus, para que volte a escrever contos e filmes! Talvez essas letras digitadas aqui agora, nesse meu antigo blog, ajudem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é que dar ler somente "os grandes cânones da literatura": quase nada presta, quase nada é possível. Contemporâneos? Hunf, dou de ombros! É um preconceito estúpido, eu sei. Eu bem sei o que é a estupidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então se eu escrevo - e quando escrevo -, eu guardo. Como se fosse uma multa grave, uma raiva que não passa. É preciso aceitar que nunca escreverei como Borges; até porque, até onde sei, eu não sou ele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-1038341330754720442?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/1038341330754720442/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=1038341330754720442' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1038341330754720442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1038341330754720442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2011/07/filosofando-das-cinzas.html' title='Filosofando das cinzas...'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-5647437818914098339</id><published>2011-01-11T07:24:00.000-08:00</published><updated>2011-01-11T07:27:03.341-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;A viagem do homem infeliz&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;a Fiódor Dostoievski&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pairava como um sonâmbulo entre os homens, como um planeta morto no céu, uma lua sem nome; assim era o homem infeliz. Olhava sempre para baixo, nunca para os demais, como se olhos e alma já não tivesse. Não lhe interessava mais o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que tinha era um revólver na gaveta, que abria e fechava, sempre que retornava à pensão onde dormia, num quarto velho e apodrecido pela humidade. Olhava a arma carregada vezes sem conta, nem pudor. Então dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mata-me se puderes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim os dias se arrastavam penosamente. No que seriam os seus últimos momentos, era difícil dormir ali, sobretudo com o barulho dos quartos ao lado. Queria refugiar-se na solidão para conseguir levar a cabo sua própria morte, mas a vida miserável que levava obrigava-o a conviver com homens da pior estirpe. Passavam a noite em jogos de azar, bebiam, espancavam-se, discutiam e riam alto – não o riso do puro contentamento, mas o do sarcasmo, do maquiavelismo. Era um riso que o homem infeliz poderia considerar um ultraje à sua condição; mas nada mais lhe importava. Tinha-lhes desprezo, desprezo por todos os homens do mundo, os animais, a natureza e até as crianças. Nada mais importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo em que o homem infeliz maldizia a todos por onde passava, chegando mesmo a amaldiçoar o mundo, como um jovem velho rabugento; mas agora só lhe restava a indiferença. Podiam continuar as mães a bater com gritos nos filhos, os homens com suas guerras, a sociedade a abandonar os velhos, os indigentes a amontoarem-se nos cantos sujos das cidades, o mundo poderia ruir em desespero, correndo atrás de dinheiro até cair nos abismos – o mundo inteiro poderia virar um grande abismo – que nada disso importava mais ao homem. Só queria estar a sós com o seu revólver à mesa, sem ser incomodado, para descarregar o fardo de viver. Aquela arma castanho-escura representava, ao mesmo tempo, seu infortúnio e salvação. Já havia se decidido há meses pelo suicídio, uma decisão fria e calculada; faltava que a desolação lhe vencesse o medo da morte, que cabe a todos os homens sãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite, o homem retirou o pesado revólver da gaveta e pôs à mesa. “É o fim de tudo”, repetiu tristemente para si, pois não havia nada para ele de misterioso entre o céu e a terra, além da mera imaginação humana. Nem Deus, nem as religiões, nem o diabo, os anjos, ninguém o acudiria do destino implacável de desaparecer por completo! Viraria comida para os vermes, adubo para as plantas, corpo encrustrado na escuridão eterna, sem que se apercebesse dela; voltaria ao pó. A vida para o homem infeliz não tinha razão de ser, era o grande absurdo. Segurou o revólver e clamou aos ventos para que aliviasse a sua dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim o homem infeliz passou a jazir num caixão escuro coberto por terra, como manda o ritual entre aqueles que se prezam. Vivia imóvel, num mundo subterrâneo, exatamente como havia previsto. Mas para a sua surpresa, ele continuava a sentir – e percebeu que estava ali. Viu o seu corpo na escuridão, sentiu o caixão de madeira claustrofóbico que o circundava e tudo o mais. O que poderia ser pior que aquilo? Depois do interminável fardo que era a vida, eis que surge o fardo da morte, em que o homem infeliz sobreviveria à escuridão das escuridões, por toda a eternidade? Sim, afinal existia vida após a morte – e ela era a morte! Observaria com asco o próprio corpo em processo de putrefação, seus restos “vivos” serem comidos pela terra, em todos os mínimos movimentos? Para o homem infeliz, isso era pior do que estar vivo, a tristeza mais escura e funda que já existiu na Terra. E então gritou, em desespero:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ó eternidade, não haverá salvação para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gritos, abafados por sete palmos de terra, não se queriam calar. Mas já que o sobrenatural existia, algo ou alguém no reino da morte deveria ouvi-lo, ainda que fosse a mais temível e escura criatura que emergisse dos subterrâneos, que fosse o diabo – estaria o homem nos infernos? - que alguém lhe desse uma resposta, ou simplesmente ouvisse a sua dor, pois ainda existia algo vivo dentro daquele corpo morto! Mas não havia nada, nem ninguém. Seria aquilo o inferno, viver na escuridão eterna como um pobre-diabo, sem poder levantar-se sequer, ouvindo alto as blasfêmias da sua mente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o homem infeliz lembrou-se do que lhe haviam dito nos livros e igrejas e que nunca deu ouvidos: as chamas do inferno, um eterno sofrimento sem clemência, onde arderia no fogo, como as pobres bruxas da Idade Média! O desespero invadiu-o a tal ponto que gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que me perdoem pelos meus pecados, ó Senhor! Salve a minha alma suja de terra e atos impuros! Livrai esse homem penitente do limbo do sofrimento e permita que ascenda da escuridão aos céus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada se movia, nem uma planta sobre a terra; ninguém o escutava. Talvez porque nada houvesse além da sua consciência. E se nada havia, então a morte era o vazio, o eterno não-ser do ser? No céu brilhava a lua cheia, desabitada, que parecia oca; a imagem celestial da morte. Mas como poderia o homem infeliz estar num vazio lunar, como poderia não ser, se tinha consciência de si? Eram perguntas que ninguém estava lá para responder, pobre homem solitário, cujo triste destino era ser abandonado pela existência! O homem a quem um dia lhe foram prometidas visões de anjos, trombetas e portas douradas do céu, todas falsas promessas para amansar o menino estúpido e bem-comportado nos banquinhos das igrejas! E quando adulto, já materialista descrente, prometeram-lhe então o descanso eterno daquela vida infeliz, repousando sobre o nada...mas qual! Ele continuava a existir – para quê? -, perpetuando debaixo da terra aquela infelicidade como uma erva daninha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E soltou mais gritos de revolta. Que não houvesse ninguém para escutá-lo não importava, ao menos tinha o direito de gritar, já que continuava a existir por dentro do corpo e da terra! Triste destino o do homem infeliz, que não eram o Reino dos Céus nem dos Infernos, mas o da solidão e descaso absoluto do universo, a pior das expiações! Mas porque não estava ele à altura da redenção? Não levara uma vida assim tão pecaminosa, lembrou ele. Havia deslizes aqui e ali, mas nada de grave. Trabalhou duro para sustentar os filhos que nunca teve, esteve com algumas mulheres libidinosas, isso sim, casou-se e descasou-se uma vez, mas nada fez que merecesse o encarceramento pelos homens da lei, ou o desrespeito da sociedade; manteve sempre boa reputação perante os demais. E agora estava sendo punido pelas hierarquias do divino, encarcerado na escuridão? Como, se nunca havia matado ninguém além de si mesmo? Seria o suicídio seu grande pecado, que o destinara à tal expiação? Mas como poderia não tê-lo feito o pobre homem infeliz, se era tão penosamente infeliz? E se Deus era bom e misericordioso como diziam, porque o deixou habitar aquela escuridão tão funda e não o pôde perdoar? E disse o homem à Deus, muito infeliz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ó pai, porque me abandonaste? Porque?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal frase lhe pareceu familiar, embora proferida com menos desespero pelo Deus-filho, o escolhido, aquele digno dos céus. Pois apesar de toda a dor que o homem infeliz carregou em vida, não era digno de um Pai, de um Espírito Santo, nem de nada transcendental. Nem sequer se dignavam a ouvir seu sofrimento em alguma esfera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que o homem percebeu que não havia nada mais a fazer e desistiu de tudo. Então toda a sua triste vida passou-lhe como um raio pela mente, no espaço de um segundo. A infância de sofrimento ao lado dos irmãos, as desilusões da vida adulta, o empobrecimento dos bens e da alma, tudo desfilou à sua frente. Ó vida miseravelmente sofrida, da qual jamais conseguira escapar, nem mesmo durante a morte! Sim, só havia uma única escolha: render-se. E apiedando-se dele mesmo, o homem infeliz finalmente conseguiu, após tantos anos, chorar. Chorou sinceramente, com toda a sua dor, até que não mais lágrimas lhe restassem, lavando todo o seu rosto, corpo e ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que uma força estranha apareceu de um só impulso e tomou-lhe do caixão, arrastando-o pelos ares da noite. O homem mal teve tempo de reagir, e os dois já ganhavam as estrelas do céu, que pareciam se multiplicar e aumentar de tamanho, infinitas eram! O homem empalidecia, tudo parecia tão inverossímil, que ele havia perdido a capacidade de falar. “Não tenhas medo”, transmitiu-lhe a tal criatura, conduzindo-o à frente num vôo pelo frescor da noite. O homem não entendia como havia a criatura se comunicado com ele, sem nada dizer; pois não possuía boca, rosto, nem era humana sequer; era difícil para ele distinguir suas formas. Ela era algo que se conseguia sentir, ouvir, mais do que ver; uma experiência totalmente diferente de tudo o que já vivera. Ninguém acreditaria naquilo! Sentia somente que estava seguro levado por ela, apesar daquele insólito acontecimento e que todas as respostas às perguntas que sempre fez, a criatura as levava consigo. Ela parecia reunir todos os mistérios da vida. E o homem perguntou-lhe, atônito, o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criatura disse-lhe simplesmente que ele sabia a resposta, assim como todas as que sempre procurou. A princípio, o homem discordaria dessa idéia, mas tinha ganhado uma tal serenidade durante o vôo, que tudo parecia perfeitamente claro. Sim, no íntimo ele sempre soube de tudo, de tudo! Na verdade todos os humanos o sabem, mas não acreditam que sabem. “Sim, os humanos desconhecem o potencial infinito que têm”, respondeu-lhe a criatura, lendo os seus pensamentos. Como conseguira? Tudo isso parecia tão surreal e inexplicável, mas ao mesmo tempo, tão familiar, como se já houvesse vivido isso antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem queria saber mais detalhes, quando adentraram o espaço. Era imenso, absoluto! Nem a Terra, nem o sistema solar existiam mais, somente uma imensidão de estrelas novas e desconhecidas. Foi quando ele compreendeu que os humanos eram parte inseparável daquela imensidão, e toda ela era o seu potencial de sabedoria: infinito! Mas os seres terrestres viviam em mundos incrivelmente pequenos, habitavam mentes obscuras, redutoras, rastejavam como cobras à terra, o que limitava-as a vida - exatamente como o homem infeliz limitou a sua. Percebeu que por isso havia ido parar debaixo da terra: aquilo era tudo em que acreditava, era todo o imaginário que havia criado, o terreno que havia cultivado, e depois somente poderia habitar debaixo dele. E o homem passou décadas na Terra sem que se apercebesse que criamos exatamente a vida em que acreditamos! Como pôde desconhecer algo tão óbvio e simples?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O ser humano é mais evoluído quanto mais consciência tem do que é, da sua relação com o universo -, transmitiu-lhe a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele havia reduzido sua existência aos vermes da terra. Pensava que era feito somente de corpo e cérebro - pois era tudo que a ciência em que acreditava podia quantificar e provar; dizia-se ateu, gostava de criticar os religiosos estúpidos, mas agora compreendia que ele próprio fez da ciência sua religião. Uma ciência que ainda tinha métodos e visão tão limitadas em relação à complexidade do universo!, pensou enquanto voava. Faltava-lhe então muito tempo para evoluir e compreender todos os mistérios da vida. Quantos anos desperdiçados, quando poderia ter feito tudo, ser do tamanho do mundo inteiro! Poderia ser imenso, expandir-se junto com o universo, como todas aquelas constelações! E a beleza daquela imensidão calou a sua mente culpada por alguns minutos. Era inútil culpar-se pelo que passou, pareceu-lhe, a culpa e sua própria vida, um espaço de tempo tão curto em relação àquela beleza imensa, interminável! Passaram então por outras galáxias, outras estrelas, com planetas de cores inusitadas orbitando ao redor. Seus olhos mal podiam acreditar. E daquelas galáxias podiam-se ver milhares de outras, de onde se viam ainda mais e maiores, ciclos dentro de ciclos infinitos! O homem percebera que aquilo não tinha fim – nem início, nem meio – e que não existia o tempo, como já previra a ciência dos humanos; tudo o que foi, é e sempre será. Ele não conseguia explicar como o percebera; somente sabia que sabia, como se sua mente houvesse alargado em compreensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não se preocupe em entender; tudo isso vai além da razão que os humanos possuem agora. A noção de tempo, de tudo separar e denominar, é a maneira que as mentes da sua espécie encontraram para apreender o mundo - descreveu a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem respondeu que “sim” com a cabeça, embora percebesse que já o sabia; aquilo também estava claro. Mas porque era tão difícil para os humanos aperceberem-se do que já sabem? Parecia uma questão paradoxal. Haveria todos de levar vidas inteiras e então morrer para entender que suas aflições, dúvidas existenciais sempre tiveram solução tão fácil, dentro deles próprios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Conhece-te a si mesmo”, não é assim que vocês costumam dizer no seu planeta? - parafraseou a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voaram, voaram, voaram. Até que uma enorme luz tomou conta do espaço, quase cegando o homem conduzido pela criatura. Era uma luz conhecida, que lhe aquecia e abrandava a alma contra todas as indagações. Tentava desvendar as formas daquela estrela enquanto tapava o rosto, quando então reconheceu, entre raios flamejantes: era o sol, o seu sol! Mas era impossível que já houvessem voltado! Seria esse outro sol, haveria no universo astro exatamente igual? E foi tomado por um clarão ainda mais forte, sem que pudesse pronunciar uma só pergunta. Como era belo o grande astro do seu planeta, e estava mais vibrante do que nunca! Quanta força reunia em si aquela bola incandescente, quanta vida! E como se uma criança retornasse ao útero aconchegante da mãe, assim ele era conduzido em direção àquela luz cálida, familiar, que reconheceu em todo o seu corpo como sua. Talvez nunca se houvesse apercebido, em vida, o quanto o sol era parte de si e o quanto lhe fazia feliz simplesmente disfrutá-lo, sem pensar; somente agradecer por sua existência, pela existência de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Que maravilha! - exclamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E próximo ao sol, pôde finalmente reconhecer a Terra, envolta em raios azuis e névoas brancas. Como era possível? A esfera parecia-lhe familiar, mas ligeiramente diferente da Terra que havia deixado antes daquela jornada. Era uma viagem no tempo. Poderia ser realmente a mesma, ou havia retornado à velocidade da luz? Por momentos, sentiu um certo estranhamento, como se estivesse diante de uma outra Terra, uma cópia da sua, um duplo. O homem estava muito confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Nada permanece igual, o universo é eterno movimento. Mas são todos movimentos cíclicos, que se assemelham entre si – refletiu a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Como no “eterno retorno”! - filosofou o homem, lembrando-se de Niestzche e outros livros que lera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquele retorno era agora à Terra. O homem sentiu-se menos confuso e mais hipnotizado pela beleza daquela esfera, que crescia aos seus olhos, cujo brilho azul o inebriava. Contemplando-a de fora, com maior clareza, ele foi tomado por um misto de amor, piedade e tristeza. Lembrou-se da sua vida, dos homens que ali habitavam e do quanto sofriam. Estaria o ser humano fadado ao sofrimento, seria a Terra o destino de toda a expiação? E apesar disso, quanta riqueza, quanta beleza continha aquele planeta, as linhas sinuosas, a combinação de cores, tudo aquilo era um brilho único e irrepetível no espaço! Após percorrer séculos de estrelas e sistemas solares, ele não vira nada fisicamente como a sua Terra; eram todos planetas de indescritível beleza, mas cada qual à sua maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim também é a vida dos seres humanos: um acontecimento singular em todo o universo, num espaço curto de tempo, que jamais retornará como antes. Cada personalidade é única e irrepetível. Essa é a fonte de toda a vossa riqueza, mas também de toda a dor – complementou a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Porque? Por não sabermos aceitar as diferenças? - questionou o homem, referindo-se às desavenças e guerras.&lt;br /&gt;A intolerância é somente um dos sintomas. Mas as causas vêm da incapacidade de cada um em reconhecer a sua própria beleza, e assim não saberem partilhá-la com os demais – explicou a criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem não sabia se havia compreendido perfeitamente tudo o que lhe transmitia a criatura, nem se havia conseguido absorver toda a informação naquela velocidade; parecia um sonho. Mas não houve tempo para mais: aproximavam-se da Terra com uma velocidade vertiginosa, o que atemorizaria bastante um ser humano comum, mas por algum motivo que desconhecia - talvez porque próximo daquela criatura ou devido à beleza inefável da jornada -, havia no homem uma aura de tranquilidade e sabedoria incomuns e, ao mesmo tempo, que parecia reconhecer de um passado longínquo - ao qual agora retornara. Quis perguntar sobre esse e outros mistérios, saber porque aproximavam-se da Terra novamente, para onde iriam e qual a finalidade de toda aquela viagem, da vida enfim, mas em questão de segundos, tudo havia mudado. A criatura gradualmente se desgarrava dele, enquanto a atmosfera azul tornava-se mais densa, conhecida, o ar da sua Terra. O homem sentia que o seu corpo começava a ganhar peso e os movimentos tornavam-se mais lentos, assim como a sua mente. O céu estava ensolarado, sem nuvens, um dia precioso!, mas a velocidade do vôo aumentava; sentia que começava a cair. Aproximavam-se dele as paisagens e um medo que lhe era familiar, a porção humana apoderava-se dele, devorava-o em meio à queda livre. E antes que pudesse gritar, vislumbrou rapidamente um oceano e em seguida, uma porção de mar onde mergulhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia entrado em outro azul que o tomava por completo: era um mar fundo de clima tropical, repleto de peixes coloridos em cardumes, plantas e corais que pôde absorver. O homem havia se esquecido o quão agradável era o mar, que sensação incrível era permanecer dentro dele! Nadou, nadou e não havia nada. Parecia-lhe um clima muito próximo ao tropical, mas não podia precisar onde. Porque fora parar ali, qual era o propósito daquilo? Então começou a perder fôlego e engolir água. Entendeu que devia deixar que o mar o levasse, como se voltasse a flutuar no espaço; devia deixar a vida seguir seu rumo sem resistência, pois entendera, nos ciclos sincronizados do espaço, que a existência era incrivelmente sábia: só bastava segui-la. Não havia o que temer, pensou, agora flutuando naquele azul infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, o mar virou todas as águas do mundo e o homem que flutuava deixava de ser ele mesmo. Uma estranha metamorfose acontecia em águas que, outrora agitadas, agora o embalavam; a natureza parecia acariciá-lo como a um filho. Já não mais pensava, o mar havia se convertido num estranho líquido; poderia permanecer ali eternamente, até porque já havia perdido a noção de tempo. Parecia haver-se fundido à existência, num cantinho escuro e aconchegante, que agora parecia reconhecer. E antes que pudesse mover-se, fora arrancado para fora do líquido com um outro corpo. Havia se convertido em um bebê que, dividido entre o conforto do útero que deixara e a confusão a respeito das novidades que lhe aconteciam, não havia conseguido chorar nas mãos do médico obstetra. Tudo acontecera muito rápido para que pudesse perceber com aquela nova inteligência. Mas para a alegria dos pais, após as primeiras palmadas, finalmente ele chorou, confirmando a sua existência. As novas imagens do mundo, com as lágrimas, eram-lhe ainda mais turvas, mas ele pôde confirmar, intuitivamente, que havia retornado à vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-5647437818914098339?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/5647437818914098339/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=5647437818914098339' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/5647437818914098339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/5647437818914098339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2011/01/viagem-do-homem-infeliz-fiodor.html' title=''/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-1130662098958296709</id><published>2009-11-19T15:18:00.000-08:00</published><updated>2009-12-30T16:41:55.598-08:00</updated><title type='text'>"VELHO BRUXO SMETAK"</title><content type='html'>(Reportagem-biografia publicada no jornal "Correio", em 2005, quando então eu era repórter especial de la. Saudades. Daqueles tempos e de Smetak - um dos maiores genios artisticos e visionarios que o mundo ja presenciou...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.waltersmetak.com/index/imagens/imagembio.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 338px; height: 427px;" src="http://www.waltersmetak.com/index/imagens/imagembio.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="margin: 0pt 0pt 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0pt 0pt 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0pt 0pt 10pt;" class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:12pt;"  &gt;Sons do Silêncio&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Júlia Lima&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:12pt;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Depois daquele dia, a quietude da igreja barroca de São Francisco jamais seria a mesma. E seus visitantes também não. Dizia-se que um velho desconhecido, que arrancara as teclas do próprio piano, tiraria sons de ímãs e captadores do instrumento em pleno altar. Nada mais inventivo. Curiosa, a juventude rebelde dos anos 70 aguardava, ingenuamente, mais um concerto experimental no Festival de Música de Ouro Preto; mas ninguém imaginava tamanha ousadia. Nos primeiros acordes do órgão elétrico, o som foi tão assustador que fez as pipocas pularem dos saquinhos. Ao mesmo tempo, o velho fez vibrar paredes, vitrais e lustres da igreja, abalando as estruturas da fé. Parecia o anúncio do apocalipse, com o teto prestes a desabar sobre as cabeças pagãs. Desesperados, todos saíram correndo da igreja. Apenas alguns hippies permaneceram, estáticos, a observar as façanhas do velho bruxo. Dias depois, eles ainda guardariam as sequelas da experiência ensurdecedora, que ironicamente pretendia fazer vibrar o silêncio.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Após a estranha reação física, igreja e público se mantiveram de pé, embora visivelmente abalados; afinal, ninguém nunca saía impune após um contato com o velho Walter Smetak. Repercutida na mídia nacional a sua fama de bruxo, louco, gênio, o compositor suíço daria boas risadas com o episódio dias depois. Claro que se a intenção fosse derrubar templos sagrados ou profanos, sua acurada pesquisa sobre sons possuía subsídios para isso; mas todos aqueles decibéis, agudos e sem nenhuma afinação, pretendiam derrubar unicamente os velhos costumes ocidentais, criando uma nova forma de percepção. Com ruídos, soluços e estranhos agudos de instrumentos criados por ele mesmo, Smetak acreditava que poderia educar as multidões para ouvir o silêncio, os sons interiores da mente, assim como os de outras dimensões ocultas. “A percepção audível do ser humano vai muito mais além do que a ínfima parte que pode ser computada, tanto para os graves como para os agudos”, escrevera.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;A ambição de ampliar a consciência do homem nasceu quando ele chegou ao Brasil, em 1937, e travou contato com a religião-ciência da eubiose, corrente brasileira da teosofia ligada às escolas iniciáticas orientais. Chegando em Salvador na década de 50, com a formação de um músico europeu tradicional, Smetak foi ser professor de violoncelo na atual Universidade Federal da Bahia (Ufba), e aqui se deparou com a riqueza cultural e religiosa da região. A partir daí, fez outra grande descoberta: a de que o lado irracional do homem precisava vir à tona. “Smetak usava o irracional o tempo todo. Na academia, você é só cérebro, e o homem é a interseção entre os dois. Ele buscava o caminho do ser”, explica o músico Marcos Roriz, seu ex-aluno.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Outorgando a si mesmo essa ambiciosa missão, ele abandona a música erudita e seus fins estéticos, para se dedicar unicamente às causas espirituais. À noite, o estudo das religiões hindus e da eubiose era repassado a anônimos no terraço de sua casa, reforçando seu caráter doutrinador; durante o dia, Smetak habitava os porões da universidade, onde montou sua oficina, para consertar e desenvolver instrumentos a partir de cabaça, sucata e tinta. “”Ele acreditava que qualquer um poderia fabricar o seu próprio instrumento, aproveitando tudo que a natureza oferecia””, conta a filha Bárbara, uma das cinco “”sementes vivas nas terras do Brasil””, nas palavras de Smetak.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Estudando os instrumentos mais primitivos da humanidade, ele cria as “plásticas sonoras”, dando cores e formas à natureza do som. Essas esculturas-instrumentos simbolizavam aspectos esotéricos, a origem da vida, do mundo, a grandeza do infinito, criando interseções entre ciência, filosofia e religião. Tanta beleza e riqueza de formas rendeu a Smetak diversos prêmios e participações em bienais do Brasil e do mundo, pela singularidade em fundir tão bem duas artes tão distintas quanto a música e a escultura.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mas ao tocar seus instrumentos, Smetak e seus discípulos produziam sons que quase nada tinham a ver com música; eram tão pouco melódicos, tão estranhos, que não pareciam pertencer a esse mundo. E seu compositor também não. Ele mesmo não se considerava músico, mas um “alquimista de sons”, um misto de cientista louco, gênio e artista, relegado ao mundo subterrâneo da universidade. Era um marginal na arte e na vida, um desvio, um maldito dentro da escola de música, repleta de professores europeus engomadinhos e convencionais. “Ele não se adaptou jamais à burocracia da universidade, e era até constrangedor vê-lo com uma caderneta de frequência debaixo do braço”, escreveu o maestro Lindembergue Cardoso.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Logo que Smetak chegou, a Ufba e a Bahia viviam sua “era de ouro”, com professores de todos os cantos do mundo, e um clima mais propício para as experimentações. Mas depois de muito experimentar nas aulas de violoncelo, desafinando instrumentos e desprezando partituras, o colegiado resolveu nomeá-lo professor de improvisação. “Smetak buscava compreender o equilíbrio dentro do caos, atingindo a mais perfeita e absoluta ordem”, filosofa o professor Oscar Dourado, seu monitor na época.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Todas as manhãs, adentrava a universidade com o costumeiro mau humor, em uma velha moto BMW preta, chamada por ele de “Prostituta da Babilônia”; era admirado pelos alunos mais pirados, fumava cigarros que ele próprio enrolava, usava sandálias velhas, suspensórios e roupas puídas. “É preciso aprender a ser pobre”, ele dizia, despido de pretensões mundanas.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Como professor da Ufba, Smetak travou conhecimento com grandes nomes da música, que foram inspirados e influenciados diretamente pelo seu trabalho, como Tom Zé, Gilberto Gil e Caetano Veloso – que produziu seu primeiro disco, Smetak, em 1974. Tempos depois, ele lançaria seu segundo e último LP, Interregno, praticamente desconhecido pelo grande público.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Sem nenhuma divulgação, apoio financeiro ou mesmo bolsa para suas pesquisas, Smetak não esmoreceu. Deixou inúmeros projetos irrealizados, como a de uma Universidade Livre, voltada para os estudos do esoterismo, arte, filosofia e ciência – elementos que também estariam presentes em suas plásticas sonoras, livros e idéias. Escritor obssessivo, deixou milhares de páginas sobre esoterismo, eubiose, composições musicais, poesias, peças teatrais – a maioria jamais publicados -, além de ter criado mais de 150 instrumentos de cordas, sopro e percussão, dando origem a uma verdadeira orquestra smetakiana.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Sua obra obedeceria eternamente ao ritmo compulsivo da criação, se eterna fosse a sua estadia nesse mundo. Mas aos 71 anos de idade, Smetak partiu para as dimensões ocultas, deixando incontáveis sementes em terras brasileiras. “Sou como a própria natureza, crio em abundância, presenteio os homens e as mulheres, e prefiro não cobrar nada”, declarou.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Estranha mistura&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Desde muito cedo, Anton Walter Smetak fascinou-se pelos mistérios do som. Com 2 ou 3 anos de idade, costumava colar os ouvidos na mesa, para ouvir na madeira as vibrações da cítara tocada pelo pai. Filho de um músico e uma cigana checos radicados na Suíça, Smetak nasceu de uma estranha mistura, envolvendo os gens da arte e do esoterismo, da técnica e da intuição, tudo isso somado à sua personalidade inquiridora de menino.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mas por volta de 1913, ano do seu nascimento, a vida em Zurique não dava vazão à curiosidade infantil; os estudos eram feitos em internatos rígidos, e a educação doméstica era controlada pela mãe com mãos de ferro. O pai, afeito às atividades mais lúdicas, encorajava-o a seguir a carreira musical e tocar cítara. Anos depois, ele se desapontaria quando o filho, por amor a Bach, escolheria o piano. Depois de um acidente com as mãos e muitas desavenças com o pai, Smetak passa a dedicar-se ao violoncelo e, em 1929, ingressa no Conservatório de Zurique.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt; De lá, ele continua seus estudos na Academia de Música e Arte Dramática “Mozarteum”, na Áustria.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Até então, ele era mais um músico europeu de formação rígida e tradicional, e o elo perdido entre o jovem e o velho Smetak, tão contrastantes entre si, parecia infinito. Mas já havia nele uma grande curiosidade pela natureza da música, menos no aspecto estético, do que na forma como ela nascia, se desenvolvia e morria, no eterno ciclo das escalas musicais executadas pelos instrumentos. Para saciar tanta curiosidade, seria preciso desmontar cada violoncelo, abrir cada piano, observando a vibração das cordas, para penetrar no lado obscuro das caixas de ressonância. E assim, Smetak passou a faltar às aulas do conservatório para frequentar oficinas de lutiers, conhecendo o fino artesanato dos instrumentos musicais. Sempre habilidoso com trabalhos manuais, ele não demorou a perceber que levava jeito para a coisa.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Solos nos trópicos&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Ao mesmo tempo, consagrou-se como um bom violoncelista, participando de orquestras e fazendo solos em Zurique. Mas as delícias da fama, na década de 30, viriam juntamente com as dores da guerra. Ao ser confundido com um alemão nazista, Smetak recebe certa noite uma pedrada na cabeça, em plena rua. O episódio precipitaria sua vinda para os trópicos, mais precisamente Rio Grande do Sul, a convite de Grunsky, seu professor de violoncelo. “Ele fugiu da guerra. Era careta, medroso, tinha medo de ser recrutado”, conta João Santana Filho, jornalista e amigo de longa data. &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Chegando ao Brasil em 1937, o jovem Smetak era apenas um menino; trazia consigo sua nova esposa alemã, Maria Agnez, uma copista de escalas musicais. Dizia-se que era mulher dominadora, e tinha a idade de sua mãe; algo que Freud explicaria bem. Tempos depois, a diferença de idade contribuiria para o fim do casamento, em 1959.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Trabalhando na orquestra das rádios de Porto Alegre, Smetak foi convidado para lecionar violoncelo no Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Estava bem estabelecido na região, e o choque cultural parecia ser pequeno, numa terra onde a colônia de alemães e suíços crescia a olhos vistos. Mesmo assim, existia perseguição aos alemães nazistas na região, e com a dissolução das orquestras, Smetak decide excursionar como músico pelo resto do país.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;À época, tocou em boates do Rio e São Paulo, no famoso Cassino da Urca, e chegou mesmo a integrar a orquestra de Carmem Miranda, como um anônimo ilustre. Nas horas vagas, dava prosseguimento às atividades de lutier, estudando eletrônica e criando um microfone de contato para piano. Por falta de recursos financeiros, ele acaba desistindo de patentear a invenção anos depois. Além das atividades de luteria e orquestra, Smetak ainda encontrava tempo para compor. Até a primeira metade da década de 50, já reunia 13 peças para piano e três para violoncelo de cordas, que viriam a ser executadas nas rádios de Zurique. Entre elas, está a famosa obra O malandro assobiando, para violoncelo e orquestra.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Rupturas&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mas se as partituras do período mostram, aparentemente, a trajetória de um músico europeu tradicional, nas entrelinhas se percebe que uma grande transformação estava sendo gestada, literalmente, no interior de Walter Smetak. Amigos contam que uma doença grave acometeu-o no Brasil, com sintomas semelhantes a um fogo percorrendo-lhe o corpo. À época, Smetak e os médicos não compreenderam bem o fenômeno; anos depois, ele qualificaria o período de quase-morte como uma espécie de iluminação, um chamado. “Foi quando ocorreu o primeiro momento de ruptura na vida dele”, explica Santana Filho.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Após se recuperar da doença, Smetak encontraria no misticismo todo o bálsamo para sua dor, e assim entenderia melhor o que o acometeu. Foi quando criou laços definitivos com a eubiose, religião apresentada por um amigo músico, em São Paulo. Sua presença nas reuniões ministradas pelo mestre José Henrique de Souza – fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, em 1924 – tornou-se freqüente. A partir da eubiose, Smetak saciou sua personalidade inquiridora, encontrando explicações para a existência, a natureza do tempo, do mundo, a partir de ensinamentos milenares vindos do Oriente. A proposta da “religião-sabedoria” era unir fé e ciência, intuição e razão, incentivando os questionamentos e discursos de seus membros na construção de um novo homem e um novo mundo.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Imerso nesses ensinamentos, Smetak incorpora-os em sua arte, dando os primeiros títulos de caráter esotérico às suas composições musicais. Nessa época, ele recebe um convite do maestro Hans Joachim Koellreutter para lecionar nos Seminários de Música da Ufba, em 1957. A chegada à Bahia, mais do que uma simples mudança de cidade, de cultura ou de costumes, foi a segunda grande ruptura em sua vida. Mas ele ainda não sabia disso.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Flertes de génio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Era um músico europeu tradicional, que contava um violoncelo, composições próprias e uma boa experiência. Mas isso não serviria de nada se Smetak não trouxesse consigo, ainda latente, uma grande curiosidade pela vida. Graças a ela germinariam, nos porões da academia baiana, todas as centenas de pesquisas, instrumentos e livros sobre misticismo; e se a natureza já lhe parecia abundante para criar, a diversidade da Bahia era o solo ideal para Smetak semear suas ideias.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Na academia, nas ruas, a Bahia da década de 50 cheirava à coisa nova: artistas e professores de várias partes do mundo, trazidos pelo reitor da Ufba, Edgard Santos; obras e exposições inovadoras, influenciadas pelas vanguardas européias; uma grande quantidade de cinemas, peças teatrais e uma rica vida cultural na cidade. Inserido nesse contexto, Smetak flertou com a música moderna, e assistiu a concertos como o do professor Koellreutter, em 1961, sobre música concreta – movimento europeu cujas composições eram feitas a partir de sons cotidianos pré-gravados. Encantado com a apresentação, ele foi incubido de criar novos instrumentos para esse novo tipo de música. Eis aí um outro chamado. “Naquela vez, alguma coisa vindo do abstrato se fez de concreto”, recordou ele.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;E assim germinaria a oficina Smetak. Enquanto pesquisava e construía novos instrumentos, ele utilizava sua criatividade também em sala de aula. Atitudes como destampar o piano, reafinar o violoncelo, apagar a luz da sala e abandonar as partituras, passaram a se tornar comuns. A idéia de Smetak era incentivar seus alunos a criar espontaneamente, unindo o conhecimento à improvisação e intuição. “”À época, a formação do músico era toda convencional, de tocar escalinhas. Smetak tinha um outro discurso, desejava abrir um espaço para que o instrumentista desse sua própria contribuição””, explica Oscar Dourado.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Experiências radicais&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Se nas aulas de violoncelo a ousadia era grande, ao ser renomeado professor de improvisação, Smetak se permitiria fazer experiências ainda mais radicais. Entrava na sala de aula com os bolsos cheios de pedras, depositava-as no chão, e ordenava: “Hoje vamos transformar essas pedras em música”. Era dado o desafio. Alunos como Tom Zé, o flautista Tuzé de Abreu e o maestro Fred Dantas não esquecem de momentos assim, em que descobriram fazer coisas de que nem imaginavam ser capazes.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mas a inventividade, a liberdade para criar deveria acontecer para os alunos dentro de certos limites. Era comum ver Smetak interromper ensaios com rompantes de agressividade, quando os alunos não davam o resultado esperado, contrastando ousadia com rigidez. “Ele me botava para fora da sala, quando eu não dava conta”, lembra Roriz, sorrindo.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Esses rompantes ajudaram a consagrar sua fama de gênio indomável dentro da Escola de Música. Embora fosse respeitado no meio, devido à sua criação, suas idéias, Smetak era para muitos um maluco. Mas ele não se dobrava. Dizia que louco vinha de “loco”, que significa “no lugar”; o resto da humanidade é que estava deslocada para ele.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Ao mesmo tempo, Smetak era bastante anti-social, homem de poucos amigos. “Ele era muito grosseiro, dizia o que vinha na cabeça. Era meio infantil, até”, conta Tuzé. A presença de Smetak, com seu mau humor solitário, o andar deselegante – “parecia um urso”, compara o flautista -, chegava a amedontrar alguns alunos. E professores também. Certa feita, ao chegar na cantina da escola, onde todos os dias tomava seu café e fumava demoradamente, ele recebeu, junto com outros professores, um convite para participar de um congresso de música contemporânea. Resmungando, ele logo recusou o papel, já que nem sequer se considerava um músico. Para amenizar, os colegas disseram que sua presença seria importante, como contemporâneo deles. Mas Smetak não pestanejou: “Contemporâneo, não, eu estou a 50 anos na frente!”, bradou ele. E deu as costas.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Para reforçar ainda mais a fama de outsider, Smetak vivia e criava solitariamente. Passava boa parte do tempo na oficina, e mal aparecia em casa. Nessa época, ele morava no bairro da Federação, e havia se casado com uma negra bastante popular no bairro: Julieta. Compartilhando as mesmas crenças na eubiose, ela trazia amigos e conhecidos para suas reuniões, ajudando Smetak a disseminar suas idéias. Entre idas e vindas, alegrias e tristezas, contra todos os preconceitos raciais alheios, Julieta o acompanharia até o fim de sua vida.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mas os filhos não entendiam bem tanta devoção à eubiose, ao trabalho, e sentiam muito a falta do pai. Tempos depois, já adulto, o filho caçula Uibitú – nome criado por Smetak, em referência ao To be or not to be shakesperiano -, tornaria-se violinista, e entenderia melhor o desejo obsessivo de criar do pai. “Apesar de tacharem ele de louco, ele era muito sério. Acreditava piamente no que fazia, em cada pincelada. Esse era seu maior valor: sua crença no que fazia”, conta Uibitú.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Pai antiquado&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Fiel ao que acreditava, Smetak não incentivava os filhos a irem à escola. Dizia que o estudo deveria ser auto-didata, e que as coisas mais importantes para se aprender estavam do lado de fora da sala de aula. Ao mesmo tempo, adotava regras rígidas, era um pai antiquado, preocupava-se exageradamente com os filhos. Não permitia que as garotas namorassem, pouco dialogava, pouco ria. Era um homem extremamente sério, ainda que na intimidade do lar.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Ao mesmo tempo, esse jeito esquisito de ser fazia sucesso entre os jovens mais ousados da escola de música. Smetak despertava a curiosidade dos alunos mais bicho-grilos, por usar a mesma calça jeans, as mesmas sandálias velhas que eles, montado na mesma moto BMW preta. Embora não partilhasse o gosto pela música contemporânea – era radical a ponto de só gostar de Bach e tolerar Stravinsky – era comum ver adeptos da música popular baterem na porta da sua oficina, para que ele consertasse seus violões. Dias depois, como excelente lutier, Smetak devolvia o instrumento novinho em folha, em geral sem cobrar nada.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;E enquanto fazia as vezes de lutier, ele prosseguia o trabalho com o som. Foi convidado para musicar uma montagem teatral de Macbeth, e gravou a trilha sonora dentro de uma caixa d´água. Durante o processo, ele criou o seu projeto mais desejado, que o acompanharia por toda a vida: o OVO. A idéia era introduzir dentro da sua Universidade Livre, que obedeceria arquitetonicamente a forma do sistema solar, um estúdio oval de 22 metros de altura, com água e microfones em seu interior, e completamente vedado. Assim não haveria mais defasagem de som entre instrumento e ambiente, fazendo com que ele circulasse por vários espaços sem reverberação. Infelizmente, o projeto OVO – “”síntese e complemento de todas as minhas pesquisas””, segundo Smetak -, jamais conseguiria financiamento para ser executado.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Microtons&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;O projeto ganhou forma quando, ao deixar um violão secar no varal, Smetak ouviu suas cordas serem tocadas pelo vento. Ouvindo com atenção a caixa acústica do instrumento, Smetak pensou em reproduzir as variações de sons mais sutis contidas ali dentro. “Ao passar por essa incrível experiência, fiquei ciente da vida das frequências contidas em intervalos mínimos”, descreveu Smetak. Foi daí que nasceu sua pesquisa sobre microtons, subdivisões quase imperceptíveis dentro de um intervalo de meio tom, e que são praticamente desconhecidas na tradição da música ocidental. “A música normal é o sistema tonal, baseado nos acordes maiores e menores. A pesquisa de Smetak veio romper com essa tradição”, conta Oscar Dourado.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Envolvido com a pesquisa dos microtons, Smetak cria seis violões, cada um dos quais com seis cordas iguais, e convoca seis músicos para tocá-los. Funda assim o Conjunto dos Mendigos – composto por músicos como Gil, Tuzé e Rogério Duarte. A idéia era habituar o público com as variações sutis dos microtons, para que pudessem ouvir outros sons menos perceptíveis no mundo físico, integrando-se completamente à natureza. Mais uma vez, Smetak utilizava a arte como elemento transformador. Não era à toa que ele, adepto de neologismos e trocadilhos, referia-se aos instrumentos que criava como instrumentos, uma forma de instruir mentes; a idéia era exatamente essa.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Decompositor contemporâneo&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Das árvores baianas, ele descobriu a cabaça, fruto que seria utilizado em boa parte dos seus instrumentos. Sua forma ovalada simbolizava para ele o mundo, a Terra, o OVO de onde surgiu a vida; nela Smetak criou dois furos opostos – os hemisférios norte e sul -, e colocou uma casca de coco do lado de dentro, e uma corda de violão do lado de fora. Por fim, o círculo da cabaça foi “cortado” ao meio por um cabo de vassoura, simbolizando as primeiras subdivisões biológicas, ou a forma do pênis introduzido na vagina, dando vida ao som. “O braço é a configuração do eixo do mundo, girando em sua volta, e o céu, o arco que passa na corda”, explicou ele. Um instrumento tão rico em simbologias, ressuscitado a partir de pesquisas sobre os contatos mais primitivos do homem com o som, não poderia, em sua riqueza, carregar outro nome que não fosse “o mundo” (1968).&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Depois de pronto, esse instrumento lhe proporcionaria outras descobertas. Da cabaça que sacia a fome dos nordestinos, Smetak criou o chori, “instrumento que nem chora, nem ri; apenas soluça”, segundo ele. Introduzindo novas cabaças na parte superior, ou mesmo cortando-as pela metade, Smetak criou uma verdadeira família de choris – choris sol e lua, violino, violoncelo, viola, baixo, choris com caixa de ressonância, entre outros. Nesta fase tão frutífera para ele, o essencial era construir instrumentos baratos, de fácil acesso para as populações mais carentes. “Se alguém quiser construir futuramente um instrumento com cabaças, que plante as sementes e não as jogue fora, que coloque as sementes na terra”, ensinava.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Além da natureza, Smetak incorporava aos instrumentos materiais recicláveis, objetos encontrados na rua, realizando assim uma arte bastante comum no período do Dadaísmo – movimento iniciado na Suíça, em 1915, que buscava questionar os valores, a arte convencional acadêmica, e a própria arte em si. A ponte entre Smetak e o Dadaísmo – cujo lema é “Destruição também é criação” -, pode ser explicitada, ainda que inconscientemente, em uma das afirmações polêmicas de Smetak: “”Sou um decompositor contemporâneo””.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Conhecimento milenar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Além dessas referências européias, Smetak descobriu, a posteriori, o quanto seus instrumentos se assemelhavam aos da antiga cultura hindu, africana e indígena brasileira. Em todos eles, percebeu que o simbolismo da forma é quase tão importante quanto o som. As formas dos seus instrumentos, até então, não possuíam cores; tempos depois, a descoberta das tintas, a partir de mentalizações visuais eubióticas, daria um novo colorido à sua arte. Surgiriam plásticas como Vir a Ser, IEAOU, Amén e Imprevisto, cujas cores, formas e sons encontravam uma simbiose perfeita. E o mundo da arte acabaria reconhecendo esse valor, em 1967, ao conferir-lhe o Prêmio de Pesquisa na I Bienal de Artes Plásticas da Bahia, que o projetaria nacionalmente numa exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). Durante a Bienal baiana – na qual Smetak expôs por insistência de um aluno -, seu curador, o artista plástico Juarez Paraíso, encontraria uma eterna denominação para as suas criações: plásticas sonoras.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;O nome não poderia ser melhor aplicado, visto que entre as obras expostas, constavam algumas que nem de longe eram instrumentos musicais, e sim esculturas – formas de ver e perceber o som. Era o caso de Andrógino, figura de barro cozido que simbolizava a ambiguidade entre homem e mulher, duas polarizações de um todo; e também Enamorados abstratos, S.O.S situação e Cravo da Bahia, esta última uma plástica feita com as cordas de um piano, em referência ao escultor e amigo Mário Cravo (1969).&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;É nessa fase que ganha vida aquele que Smetak considerava o seu instrumento mais genial: a vina. Com nove meses para ser concluída, Smetak a considerava uma filha. Feita de molas de relógio, sinos, arames, três cabaças e bambu, a Divina Vina simboliza diferentes tricotomias, como a das divindades indianas Shiva-Vishnu-Brahma, ou mesmo a transformação-superação-metástase, postulada pela eubiose. Dentro estão contidos uma harpa e dois sinos chineses, dando origem a um som semelhante ao violoncelo, ou, a depender da chave de registro – a “alma” do instrumento – recriando sons orientais. Para tocar a Divina Vina, seria necessário todo um ritual, com o músico virado de costas para a platéia, vestindo uma capa com máscaras que representam a tricotomia indiana.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Para além dos rituais que o músico de Smetak deveria seguir, ele ainda deveria dividir com outros músicos o mesmo objeto. Instrumentos coletivos como pindorama, a grande virgem e apitos, expostos em 1970, possuíam muitos braços e mangueiras, e todos disputavam espaço para soprá-las. Em verdade, os músicos deveriam abandonar todas as pretensões, todo o ego, para criar uma arte em equipe, tendo o instrumento como fator de transformação.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;No ramo individual, os músicos já poderiam contar com outra modalidade: seus instrumentos cinéticos. Como as mais recentes pesquisas de Smetak sobre a acústica musical buscavam o som contínuo, a partir da repetição do ciclo das notas, ele criou instrumentos arredondados, como a ronda e “os três sóis”; a depender da velocidade, o tocador poderia ouvir diferentes sons, e seu efeito contínuo é hipnotizador – transportando, de fato, tocador e ouvinte para uma outra dimensão. Com a ronda, instrumento em forma de uma ampulheta deitada, símbolo do infinito e do tempo, Smetak descobriu que o ritmo, a melodia e a harmonia dependem da velocidade do giro. Era a velha fórmula matemática do movimento-espaço-tempo, despertando a consciência através do som.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Arte espiritual&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mesmo debruçando-se sobre essas pesquisas, Smetak nem por um momento deixou a eubiose. Ao examinar sua obra, percebe-se que a religião era para ele uma proposta, um fim, e a arte era apenas um meio de dar vazão a ela. “A arte espiritual deve penetrar totalmente na vida do homem, transformando-o num ser superior em quem se processará a criação artística espontânea e na qual a idéia será permanente”, postulou. Com o fim do grupo de Sexteto de Violões, e o fracasso fonográfico do LP Smetak, ele acaba recolhendo-se ainda mais para estudar a eubiose. Intensifica sua produção de textos esotéricos, e lança o livro O retorno ao futuro – O retorno ao espírito (1981), único do gênero a ser publicado. Sua produção de textos, que ainda incluem poesias abstratas e e peças de teatro, seria encerrada com o livro A simbologia dos instrumentos, onde ele analisa todas as suas plásticas sonoras.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Nessa época, Smetak já se encontrava completamente só. Havia se separado de Julieta – de quem se tornara um grande amigo -, para viver um romance com Cristine, uma jovem belga. Com o retorno dela ao exterior, ele conhece as dores e delícias de sofrer por amor na velhice. Já havia passado o tempo de se aposentar, e Smetak não sabia lidar com as questões práticas da vida; além do que, tinha dificuldade para ler documentos, já que estava com catarata. Mas a cegueira não impediria que ele corresse com a sua motocicleta, os faróis queimados, pelas ruas da cidade. Ainda enxergava longe.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Última oitava&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Smetak, tak, tak. A sonoridade de seu nome, bem observada pelo amigo Gilberto Gil, mostra que o tempo, como os ponteiros dos relógios suíços, não pára. E mesmo sendo “conhecedor” da eternidade, buscando as variações infinitas dos sons, Smetak sabia que todo ciclo tem um fim. E o seu já havia completado a oitava nota, o oito que simboliza o infinito, para então recomeçar a escala musical. Mesmo sem vestígio algum de doença, Smetak intuiu que era hora de se despedir da vida. Retornou às suas raízes na Suíça, visitou pela última vez os filhos e a ex-mulher, e naquele dia afirmou que não iria mais voltar. E nunca mais voltou. Pelo menos até agora.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Nos últimos anos de vida, tudo o que tinha era uma visão bastante comprometida, o que não lhe impedia de enxergar além das coisas da vida. Dirigia sua moto praticamente cego, sem nunca ter se acidentado; um mistério que nenhum médico conseguia explicar. Visitas aos consultórios, providências com aposentadoria e outros problemas mundanos foram assumidos pelo amigo João Santana Filho, que o abrigou em sua casa. No fim da vida, Smetak era um pobre velho que não tinha onde morar, cada vez mais solitário, mais saudoso diante da separação da última mulher. “Ele morreu de amor”, conta Santana Filho.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Devido ao excesso de cigarro, Smetak passou a ter crises constantes de falta de ar. Assim como sua arte, a fumaça era também um vício do qual ele não admitia se livrar. E assim ele fumaria, escreveria e esculpiria até os últimos dias de vida; até que o aparecimento de um enfisema pulmonar, nada muito grave, obrigou os amigos de Smetak a interná-lo. Com o apoio de Julieta, Gilberto Gil, Santana Filho e outros amigos, foi conseguida a vaga na Fundação José Silveira, uma referência na época. Mas quis o destino que ele contraísse ali uma infecção hospitalar, morrendo logo em seguida.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Nova era&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Felizmente, Smetak já havia se despedido de quase todo mundo. À família, confidenciou que retornaria à Terra no ano de 2005, para cuidar de sua obra. Não por acaso, ele compôs uma plástica sonora e uma composição denominada M 2005; para Smetak, este era o ano de uma nova era, um marco na transformação do homem na Terra.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Esse novo homem, uma sub-raça que prevaleceria sobre as demais, surgiria em terras brasileiras, após um maremoto de proporções gigantescas – uma espécie de apocalipse eubiótico. Desde crianças, seus filhos acostumaram-se com a idéia de um tsunami brasileiro, e viviam temendo que ele acontecesse. Sabiam que o litoral brasileiro engoliria todo o resto do país, e apenas sobreviveriam os seres mais evoluídos. “Salve-se quem souber, porque poder, ninguém poderá mais”, profetizava Smetak. Esse novo homem, como ele pressentiu numa visita à Amazônia, seria dotado não só de inteligência, como de uma acurada intuição.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Enquanto esse dia não vem, amigos e parentes de Smetak consideram benéfico o fato de ele ter partido deste mundo. No Brasil de hoje, na era da indústria cultural, da banalização da arte e da vida, muitos acreditam que Smetak não sobreviveria. “Ele seria avesso a tudo isso”, acredita Oscar Dourado. Mas mesmo nos melhores momentos, o alquimista sempre foi avesso ao resto do mundo. Não se encaixava em nenhum padrão, não fazia parte de nenhuma corrente artística específica; até mesmo sua obra, uma confluência de quase todas as artes, é quase indefinível. E mais indefinível que ela, só o próprio Smetak. “”Ele me dava a sensação de um misto de cientista louco e Papai Noel de província; misto de chefe religioso severo e ameaçador, e velho manso conselheiro, de farta cabeleira branca e porta sempre aberta aos curiosos do Antique e do Mistério””, arriscou-se Gil.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';" &gt;Árvore frondosa&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Tantos homens, formas de arte e crenças numa só pessoa faziam de Smetak uma árvore frondosa de infinitos galhos, raízes, braços que tentaram abraçar o mundo. Deixou incontáveis sementes na Terra, escritos em folhas de natureza morta, plásticas sonoras vivas, que vibram ao menor toque das mãos. Colecionou pinturas, poesias, peças teatrais, cinco filhos e muitos amigos.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Reunidos após a sua morte, em 1984, eles fundaram a Associação Amigos de Walter Smetak – idéia de João Santana Filho -, com a intenção de divulgar e preservar sua obra. Mas o tempo que tem o poder de unir as pessoas, é o mesmo capaz de separá-las. Passadas algumas décadas, com o grupo mais disperso, tem sido difícil manter viva a alma de Anton Walter Smetak. Seus instrumentos, depois de circularem pela Escola de Música, foram depositados no terceiro andar da Biblioteca Central da Ufba, em 1986, junto com seus livros, manuscritos, folhetos e fotos. Desde então, família e membros da Associação vêm lutando para encontrar um novo espaço para a memória de Smetak. “As , quando vêem os instrumentos, ficam loucas para tocar, mas na biblioteca não tem espaço, e é preciso fazer silêncio”, reclama a filha Bárbara.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Nos últimos anos, Gilberto Gil, através do Ministério da Cultura, vem demonstrando interesse em criar um espaço para o Memorial Smetak. O projeto foi elaborado minuciosamente pela Associação, mas devido a problemas de caráter financeiro, ainda não saiu do papel. Enquanto isso, as plásticas sonoras de Smetak vão se deteriorando, perdendo a cor e a vida. Ao visitar o acervo na Ufba, testemunha-se um globo terrestre murcho, algumas cabaças quebradas, e muita falta de manutenção. A Ufba afirma que faltam verbas para mantê-los; e sem as condições climáticas adequadas, na última leva de vento na janela, muita coisa de Smetak se perdeu.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Para amenizar a dor da família, sua obra vem sendo visitada por pessoas de todos os cantos do mundo, e no início do ano, o flautista Tuzé viajou com seus instrumentos para tocar no Música em Março, um festival experimental em Berlim. Lá assistiu-se a uma grande improvisação coletiva, que com certeza Smetak teria apreciado. Ou apreciou.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Além do exterior, existem no Brasil músicos experimentais que reclamam a influência de Smetak. É o caso do Uakti, grupo liderado por um ex-aluno seu dos Seminários de Música, Marco Guimarães. O grupo mantém viva a busca incessante de Smetak por novos tipos de som, utilizando tubos, instrumentos instrumentos com água, arcos e plásticas sonoras do velho mestre.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Mesmo em grupos experimentais como o Uakti, percebe-se que ninguém criou uma obra tão visceral, e ao mesmo tempo com ideais tão nobres e gigantescos como os de Walter Smetak. Por ser uma figura tão singular, tão estranha, ele não deixou sucessores; era único.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:'Book Antiqua';font-size:100%;"  &gt;&lt;b&gt;Muitos dizem que morreu decepcionado com o mundo, o que não seria improvável. Alguém para quem o calendário era desenhado em milênios, a cabaça representava o mundo, Mozart era um Cristo e a lua era oca, não poderia jamais ser compreendido pelos homens; parecia-lhes loucura. Seus ideais de elevação da alma humana, numa era considerada por ele como tão imediatista, tão voltada para o estar em detrimento do ser, eram impossíveis de se realizar num só tempo. E Smetak sabia disso. Para que fosse atingido o ápice da evolução, seriam necessários milhões e trilhões de anos, algo inimaginável para os homens de hoje, incapazes de apreender o tempo. “Precisamos de uma inteligência muito maior do que a que temos agora”, profetizou ele. Mesmo projetando o mundo à frente do seu tempo, Smetak deixou plantadas na Terra as suas sementes, sonhando com o dia em que os homens se transformarão em seres divinos. Nesse dia, não mais haverá homens, corpos ou mentes. Apenas os sons do silêncio.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-1130662098958296709?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/1130662098958296709/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=1130662098958296709' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1130662098958296709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1130662098958296709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2009/11/velho-bruxo-smetak.html' title='&quot;VELHO BRUXO SMETAK&quot;'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-6847017611830116054</id><published>2009-11-06T02:48:00.000-08:00</published><updated>2009-12-30T16:01:59.549-08:00</updated><title type='text'>Considerações sobre o tempo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Faz tempo que não visito esse blog, um espaço que já foi tão meu... Mais de um ano -, calculei agora. Ao mesmo tempo, revendo-o, parece que foi há um minuto atrás que o deixei. As lembranças do que sentia ao escrever aqui emergiram com tanta força, que revivi tudo agora como se o tempo não houvesse passado. Sim, o tempo é uma ilusão, dizem os cientistas - e corrobora a física quântica moderna. A questao, para alguns misticos, seria que nós insistimos em viver nele, ou melhor, limitamo-nos a isso, pois a mente humana não concebe a complexidade das coisas em tantas dimensões distintas. Por outro lado (e sao infinitos os "lados", embora nao os percebamos), nos podemos sentir que não há tempo algum; que lembrar-se é mais uma forma de trazer a tona velhas vivencias para o AGORA. A ciência diz que a mente nem sequer pode distinguir entre passado e presente: durante a recordação (ou a imaginação), tudo é vivido e sentido novamente, ou seja: ativam-se os músculos de um nadador mesmo quando ele esta parado, imaginando-se (ou recordando-se) nadando no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio mar - retornando novamente a ele, "relembrando" os  posts mais antigos -, é uma metáfora do tempo e da vida, posto que a vida é movimento. Nada poderá ser como antes - nem mesmo o que afirmam ser Deus. Para aqueles que afirmam que O Todo, (ou Deus, "Senhor", "Pai" ou como queiram representa-lo) é a unica coisa imutável no universo, outros pensadores argumentam que essa grande consciencia está a todo momento revivendo o êxtase da sua própria recriação - a partir de nós e do mundo. Ou seja: a velha maxima "a única coisa que não muda é a mudança" e de fato verdade. Tudo esta fadado a mudar, a todo instante. E visto que a mudança é apenas uma abstração - e no fim, assim são todas as coisas -, então nada permanecera inalterado. E isso é o que torna a vida ainda mais bela e, paradoxalmente, mais dolorosa!...:)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-6847017611830116054?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/6847017611830116054/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=6847017611830116054' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/6847017611830116054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/6847017611830116054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2009/11/consideracoes-sobre-o-tempo.html' title='Considerações sobre o tempo'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-7889876451584488040</id><published>2008-07-19T07:43:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T09:01:33.099-07:00</updated><title type='text'>Uma Crítica - sobre o filme do ano</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp2.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SIIFrmFkZRI/AAAAAAAAADM/4ntQNccw82k/s1600-h/into%2Bthe%2Bwild+2.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5224744764219614482" style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center;" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SIIFrmFkZRI/AAAAAAAAADM/4ntQNccw82k/s400/into%2Bthe%2Bwild+2.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;INTO THE WILD&lt;/strong&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;(EUA, 2007)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma viagem em busca do auto-conhecimento, até as últimas consequências. Talvez seja essa uma boa maneira de definir o último filme de Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer, sobre a história real de um universitário que abandona um futuro brilhante para levar uma vida selvagem no Alasca. De fato, os povos antigos sempre foram unânimes em retratar, através de mitos, histórias de profetas e iluminados, a importância da natureza no processo de busca interior. Também Sean Penn parece estar buscando a si mesmo, quando nos apresenta o filme mais maduro de sua carreira, uma peça rara, sobre um jovem que vai de encontro aos seus instintos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leitor voraz de Jack London, Tolstói, entre outros adeptos da vida selvagem, o jovem Christopher McCandless logo se dá conta de algo que a humanidade parece ter esquecido: que a natureza somos nós. Para buscar Deus, seu ídolo Tolstói se une genuinamente à vida selvagem (e simples), pois somente nela reside, segundo as palavras de Chris, “a verdade” que buscamos. A fotografia de Eric Gautier, de tão bela, parece exprimir toda a divindade que emana da natureza. A imensidão das montanhas de neve contrasta com os planos de detalhe de plantas e animais em diversos locais dos EUA, saciando a sede do protagonista em experienciar o mundo - ao som da imperdível trilha de Eddie Vedder, líder do Pearl Jam. Chris deslumbra-se com a água do banho, as belas paisagens, o mar, vibrando com cada conquista na tentativa de domar a natureza para sobreviver; mas também sofre quando tem que matar um alce, e, com as mãos sujas de sangue, colhe as vísceras do animal que será, por fim, devorado por outros. São as leis da natureza, nas quais o instinto de sobrevivência fala mais alto - e percebe-se que ali não cabem julgamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para “experimentar o novo” com a mais genuína liberdade, Chris livra-se dos documentos – apelida-se Alexander Supertramp -, e também do dinheiro, carro, diploma, ou qualquer outra coisa material que o prive de viver cada instante daquela viagem por inteiro. Até mesmo a família, quando perguntado, ele afirma que já não tem; mas é compreensível que uma alma aventureira queira distanciar-se de pais excessivamente preocupados com dinheiro, reputação, formalidades, e que ainda arrumam tempo para se estapearem. O dinheiro, segundo ele, deixa as pessoas demasiadamente cautelosas. E o desejo de juntá-lo em nome de uma segurança excessiva expressa, no fundo, o conhecido medo da morte. Destemido ao extremo, ele queima incontáveis notas de dólares, negando para sempre a vida confortável e anêmica que levava. Quando descobre que até mesmo a história do relacionamento dos pais era uma farsa - e como Ivan Ilitch, personagem de Tolstói, percebe que sua vida “é uma mentira” – ele vai buscar a verdade no mundo dos sentidos, no lado mais puro do ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um senso de humanidade extrema, o filme de Sean Penn é dividido em capítulos de acordo com o amadurecimento gradual do protagonista. De início, é predominante a intenção de Chris de fugir do passado, quando despreza seu nome, sua família, a sociedade e, consequentemente, o ser humano, qualificando-o como cruel; também parece temer o apego aos amigos que faz pelo caminho, abandonando-os sem deixar rastros. Mas o conhecido poder tranquilizador da natureza, do silêncio, a solidão meditativa, a literatura e a generosidade das pessoas que encontra, vai mudando completamente sua visão de mundo. Momentos antes de chegar ao Alasca, Alex reconhece nas palavras de um senhor sábio a importância do perdão como elemento libertador e de união com Deus – ou com o todo. Nesse momento, contemplando a imensidão vista do topo da montanha, os dois presenciam o sol brilhar intensamente em suas direções, simbolizando uma luz divina. Esse é o chamado capítulo final, o da sabedoria; após percorrer céus e terras em busca de si mesmo, Alex finalmente conclui que precisa retornar e dividir com todos a linda aventura que viveu. Mas é tarde demais. É época de cheia dos rios e, tendo rasgado os mapas, ele fica preso num terreno inóspito no Alasca. Mas não se rende à amargura um momento sequer; reescrevendo seu nome e sua verdadeira identidade, Chris permanece até o fim como o mesmo rapaz doce, sensível, encantado com a beleza que o cerca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Julia Lima&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-7889876451584488040?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/7889876451584488040/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=7889876451584488040' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7889876451584488040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7889876451584488040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/07/uma-crtica-sobre-o-filme-do-ano.html' title='Uma Crítica - sobre o filme do ano'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SIIFrmFkZRI/AAAAAAAAADM/4ntQNccw82k/s72-c/into%2Bthe%2Bwild+2.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-6979066980659964127</id><published>2008-07-12T16:42:00.000-07:00</published><updated>2011-01-11T07:28:40.795-08:00</updated><title type='text'>Um conto em Portugal</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify;font-family:times new roman;" &gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;(conto situado na cidade em que vivo, Braga, Portugal - baseado em um sonho que tive.)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold;font-family:courier new;" &gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O Pesar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Entrei em Braga algo desconfiado. Nada parecia ser como era. Embora eu já tivesse vivido naquela cidade portuguesa em anos recentes, as coisas estavam ligeiramente irreconhecíveis. Talvez devido ao peso que carregava, ao cansaço ou à sonolência que dominavam o meu corpo naquela manhã; ou ainda ao horário pouco usual em que adentrara a cidade, ao raiar do sol de um dia de verão. O fato é que até mesmo o sol recuava tímido, num céu cinzento de uma cidade que era Braga, mas não parecia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhava ouvindo apenas o som alto da minha respiração – carregava nos braços uma grande encomenda da qual desconhecia o destino -, reparava nos prédios mais antigos, cujas fachadas procuravam manter-se sempre iguais, mas que naquele dia eram levemente diferentes. Talvez porque estivesse tudo fechado, pensei para me acalmar, tão forte era o meu estranhamento. O certo é que Braga soava, cheirava, apresentava-se para mim como um cenário – a encenação inanimada de um lugar que não existia mais -, e isso me assustava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava passando pelo centro histórico, em frente ao antigo Café Vianna, com suas portas fechadas, quando parei para descansar em uma das esplanadas. Não estava habituado a encontrar os antigos cafés da cidade, que durante anos me fizeram companhia, como estabelecimentos vazios com cadeados pouco amigáveis. Logo os sinos das igrejas anunciarão o horário da cidade ganhar vida, me consolei. Era uma questão de tempo. Talvez tudo ali fosse uma questão de tempo, e daí o meu desconforto: embora bem conservados, os antigos prédios pareciam deteriorar-se diante dos meus olhos. Me levantei, evitando encará-los em seus pormenores, para fugir da tristeza. Tinha uma encomenda a entregar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma grande avenida ganhava forma à minha frente, e eu não sabia bem para onde ir. O peso parecia cada vez mais pesado, assim como o meu corpo. Os prédios ganhavam imponência. Em qual deles deveria parar? Se não sabia sobre o meu destino, numa cidade que me parecia estranha, sabia muito menos sobre o teor da encomenda. Era apenas algo pesado sobre os meus braços, enrolado misteriosamente para ser entregue a alguém mais misterioso ainda. E logo um medo subiu ligeiro e reto pelas minhas costas, até o topo da cabeça. Nada parecia fazer sentido. Por um instante, poderia abandonar o embrulho no chão e simplesmente ir embora. Parecia a melhor solução. Mas não poderia fazer isso. Não, não. Algo mais forte me dizia que tinha de continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pensando nisso, no entanto, parei para descansar na calçada. Poderia me sentar no meio da rua, tamanha a quietude daquela cidade. Somente as nuvens se moviam, e apurando os ouvidos, quase se poderia ouvi-las. Segui em frente na esperança de conseguir passar o meu fardo adiante; me doíam os ombros, os braços e os joelhos. Caminhei até avistar ao longe um estabelecimento de portas abertas. Seria ali? Finalmente me livraria de todo aquele pesar, e deixaria aquela cidade de alma e mãos livres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhava fixamente para o lugar, caminhando cada vez mais rápido. Era aquele o destino final, tinha que ser. Logo vi um balcão, estante, escadas de madeira. Não havia ninguém, somente um punhado de árvores mortas e envernizadas. Seria um hotel, ou pensão abandonados? Por um momento, senti que era ali. Logo apareceu um rapaz, sério, me cumprimentando com um aceno de cabeça do outro lado do balcão. Pegou em alguns papéis e começou a preenchê-los, sem pestanejar. Depois parou, me olhou com o peso nos braços e apontou para um sofá no canto da sala: “Pode desenrolar e deixar ali”. Retirei com cuidado uma enorme manta que cobria com muita voltas aquele volume. Até que percebi, para meu espanto, que era eu. Estava ali, deitado num velho sofá, o meu próprio corpo! Como era possível? Então eu havia morrido? De fato, o corpo parecia sem viço, estático, quase um boneco. Levei as mãos ao peito e me certifiquei de que estava inspirando; então respirei aliviado. Se sentia o arfar dos meus pulmões, o cansaço, as velhas dores nas costas, como não poderia estar vivo?, me perguntei. E ali, sentado na beira do sofá diante do meu próprio corpo, como um médico a assistir um doente, percebi que o rapaz me observava. “Vai ficar tudo bem”, disse, concluindo com um inesperado sorriso. Nada parecia ser grave, e ele serenamente retornou aos seus afazeres. Também eu deveria retornar, pensei. Da porta já se viam os primeiros raios de sol, que me convidaram à rua. Braga, como se tivesse sido revestida em poucos minutos, me parecia estranhamente familiar. Contemplei-a, deixando para trás aquele corpo pálido, embora fosse ele uma parte de mim. Muitas perguntas permaneciam sem resposta. Mas era boa a sensação de ter carregado um peso sozinho até o fim. Parei para um café. Começava o dia para os primeiros transeuntes nas calçadas, e já se ouviam carros e outras portas se abrirem. Sentia-me mais leve do que nunca, rodeado de sol e vida, caminhando na direção de onde vim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-6979066980659964127?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/6979066980659964127/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=6979066980659964127' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/6979066980659964127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/6979066980659964127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/07/um-conto-em-portugal.html' title='Um conto em Portugal'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-544357016256535599</id><published>2008-07-09T20:34:00.000-07:00</published><updated>2008-07-12T17:31:02.349-07:00</updated><title type='text'>Catarina, a Grande</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp3.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SHWFHujqETI/AAAAAAAAAC0/bmMBA_kAtKk/s1600-h/P5120043.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5221225710809125170" style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center;" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SHWFHujqETI/AAAAAAAAAC0/bmMBA_kAtKk/s320/P5120043.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Já faz mais de um ano que ganhei uma gata, Caty. Foi meu primeiro animal de estimação, já que nunca me foi concedido pela minha mãe o direito de ter um gato ou cachorro em casa. Meses antes de conhecê-la, indo morar em Madrid, manifestei aos amigos a vontade de ter um animalzinho. A maioria me aconselhou a ter cachorros, porque gatos “são esnobes, pouco atenciosos e nada carinhosos”. Ledo engano.  O desejo continuou, e foi  crescendo de tal maneira que, como muitas coisas em minha vida, logo se realizou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo começou quando conheci meu atual marido português, Nuno, que na época estava visitando Madrid. Começamos a namorar, e logo depois ele adotou Caty de uma maneira atípica. Conhecia-a da rua, perto de casa, e se impressionava com o jeito amistoso com que ela miava sempre que ele passava por ali - e respondia-lhe com brincadeiras. Até que um dia foi correr na rua e encontrou-a atropelada, desmaiada, o maxilar totalmente destroçado. Com muita pena, Nuno resolveu salvar sua vida, levando-a ao veterinário e se endividando para pagar sua operação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando estava curada, a veterinária recomendou cautela, pois, de uma maneira geral, os gatos vira-latas são arredios e não se adaptam à vida no lar. Outro engano. De início, Caty se mostrou um pouco medrosa, desconfiada, devido à violência do acidente; mas não demorou para que pulasse nos ombros de Nuno e se enrolasse no pescoço dele, como um casaco de pele! - hábito que mantém até hoje. Comecei a visitá-lo regularmente, e o carinho de Caty para comigo não era menor. Belíssima (como a maioria dos gatos), muito carinhosa (como a minoria dos gatos), atenciosa, brincalhona, aquela gata - modéstia à parte - era realmente irresistível. Tanto que meu marido prometeu devolvê-la à rua logo que se recuperasse totalmente, por achar que lá ela teria mais liberdade e seria mais feliz do que num apartamento...Mas nunca conseguiu desgarrar-se dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Logo fui morar junto com Nuno em Braga, Portugal - nos casamos - e passei a ter uma gata que nos recebia todos os dias na porta, fazendo festa, subindo sempre no nosso colo, nos fazendo carinho com a própria patinha, dormindo abraçado, brincando de correr, olhando fixamente para nós sempre que estávamos junto dela...Seus olhos, muito expressivos, nos dizem tanta coisa sem dizer nada! E até mesmo quando mia, ela sabe como pedir algo ou responder às nossas perguntas, pois entende boa parte do que estamos dizendo. Por exemplo, basta dizer “papai chegou” para que ela vá correndo para a porta receber o Nuno!, rsrs... Sim, temos Caty como uma filha. Pode parecer bobagem, mas no meu inconsciente ela está representada assim - a ponto de a inocência e os gestos das crianças na rua sempre me lembrarem ela. Às vezes tenho ímpetos de mãe superprotetora (rsrs), quando a impeço de passear no parapeito da janela, ou carrego-a pela casa como um bebê...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obviamente, é grande o meu desejo de ser mãe um dia, mas Caty jamais perderá o seu lugar no meu coração. Ela é especial. Sente quando estamos tristes, quando queremos ficar sozinhos ou precisamos da sua presença. A cada dia ela me surpreende mais com sua sensibilidade. E à veterinária também, ao revê-la depois de um tempo: “É uma gata de rua muito diferente! Carinhosa...faz até ron-ron!”, exclamou, sorrindo. Com todas essas virtudes juntas, só mesmo Caty – apelido de Catarina, a Grande (rsrs) –, uma gata de porte pequeno e coração gigante. Explicando assim, é fácil entender o nosso amor por ela. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-544357016256535599?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/544357016256535599/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=544357016256535599' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/544357016256535599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/544357016256535599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/07/catarina-grande.html' title='Catarina, a Grande'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SHWFHujqETI/AAAAAAAAAC0/bmMBA_kAtKk/s72-c/P5120043.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-2752727899879047636</id><published>2008-05-10T09:38:00.000-07:00</published><updated>2008-07-20T08:16:27.551-07:00</updated><title type='text'>Perfil - Homenagem a André Setaro</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SCXSognAtwI/AAAAAAAAACU/8TBhUiQPhag/s1600-h/setaro%2Bfumando.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5198792938259265282" style="margin: 0px 10px 10px 0px; float: left;" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SCXSognAtwI/AAAAAAAAACU/8TBhUiQPhag/s200/setaro%2Bfumando.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;UM CLÁSSICO DO CINEMA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aos 53 anos, André Olivieri Setaro é um homem à margem do seu tempo. Pela janela da Faculdade de Comunicação da Ufba, assiste a vida passar, com a mesma passividade de quem vai ao cinema e não se identifica com o que vê. “Eu não pertenço mais a esse mundo”, sentencia. A lentidão dos passos e das palavras possuem o ritmo dos filmes que gosta, fazendo de sua presença quase uma encenação. “Ninguém mais hoje contempla nada”, diz o professor, blasfemando contra a velocidade dos tempos pós-modernos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vagando pelos corredores velozes da faculdade, os sapatos que se arrastam com dificuldade, equilibrando o corpo curvado pela timidez. A barba branca esconde um sorriso, enquanto ele conserta os óculos para melhor enxergar os filmes que vê. “Já imaginaram o que seria um crítico de cinema cego?”, sorri. Os olhos, curiosamente, são como os negativos de filmes, particularmente sensíveis à luz do sol. Sob os óculos escuros, o olhar perdido parece, a todo o momento, projetar imagens de um tempo que não voltará mais. Tempos em que o cinema se legitimava como arte nos filmes de Godard, na &lt;em&gt;Cahiers&lt;/em&gt;, a época áurea do cinema americano ou no surgimento de Bergmans, Fellinis e do consagrado &lt;em&gt;cidadão&lt;/em&gt; Orson Welles. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Essas e outras cinematografias são resumidas em poucas palavras, entre uma tragada de cigarro ou outra requerida educadamente aos alunos. Segundos depois, o que se vê ali não é tão somente um homem de meia-idade tragando um cigarro, mas um momento de raro prazer em que a fumaça é degustada lentamente após a exibição de cada filme. “Eu posso fumar?”, pergunta, a fala pausada e inconfundível, com um isqueiro nas mãos. E a fumaça se dispersa pela sala junto a impressões diversas sobre a vida, suas angústias e outras lembranças.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nas aulas seguintes, os filmes mudam, mas semelhante aos diretores que aprecia, a forma de transmitir a mensagem permanece. Cada detalhe de um quadro, movimento de câmera apontado, evidencia o prazer incansável de assistir o mesmo cinema, de fumar os mesmos cigarros até a última ponta. Vive-se intensamente cada manhã. Ou vivia-se.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As matinês no Cine Guarani, na Bahia dos intelectuais da década de 60, freqüentando as aulas de Walter da Silveira no Clube de Cinema ao lado de Glauber Rocha, Rex Schindler e Sante Scaldaferri são momentos incomparáveis para Setaro. “Havia a Rua Chile, o centro, havia uma elegância que desapareceu”, lamenta o carioca. Além do mais, reclama o desaparecimento da cultura humanística nos suplementos culturais, repletos de grandes ensaios como os de Paulo Emílio Salles Gomes. “Hoje é tudo muito especializado”, acrescenta. Só nos jornais, já se vão mais de trinta anos dedicados ao cinema, que ele hoje divide com outras colunas, incluindo matérias sobre as pernas de Marilyn Monroe, ou a beleza inesquecível de Brigitte Bardot. “Casamento é uma hiperconsumição”, afirma sorrindo, com o ceticismo de quem já se casou três vezes sem acreditar na bênção de Deus. “Sou ateu”, declara, com uma convicção quase religiosa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O interesse pelo cinema vem crescendo desde os 7 anos de idade, e hoje concorre com duas de suas maiores obsessões: a morte e o tempo. A primeira delas é assunto corriqueiro em suas aulas, entremeada por muitas tiradas de humor negro. A segunda é quase sintomática em se tratando de um crítico de cinema, que assiste de perto às hábeis formas de se manipular o tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se o seu ritmo lento e incomum contrasta tanto com a era atual, a interação com o mundo se faz sobretudo no exercício da observação. As idas aos bares, cada vez mais solitárias e freqüentes, são também um meio de estudar as pessoas ao redor. É como se ignorasse que guarda em si um personagem tão curioso e único quanto os filmes que admira. “Gosto de estudar as pessoas”, diz o senhor do tempo, que merecia ser estudado como os grandes clássicos do cinema. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Julia Lima&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(perfil escrito em 2004, para o teste no jornal &lt;em&gt;Correio da Bahia&lt;/em&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-2752727899879047636?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/2752727899879047636/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=2752727899879047636' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/2752727899879047636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/2752727899879047636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/05/homenagem-andr-setaro.html' title='Perfil - Homenagem a André Setaro'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SCXSognAtwI/AAAAAAAAACU/8TBhUiQPhag/s72-c/setaro%2Bfumando.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-265369296346419071</id><published>2008-05-10T08:56:00.001-07:00</published><updated>2008-05-17T07:16:04.878-07:00</updated><title type='text'>Um conto</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ZICA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vida de pobre é rica em desgraça. Dia desses tava passando pela Lapa, vento zunindo, choro de mulher. Que é que há, perguntei. Comeram a Zica. Comeram a Zica à força, sem pedir licença. E mesmo que pedissem, quem deixaria? Zica era cachorra fino trato, pêlo escovado, não conhecia a rua. Acabou distribuída no velho churrasco de domingo, último sábado. Nem esperaram o dia seguinte. Mundo cão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Julia Lima&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(inspirado nos contos do escritor João Antônio)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-265369296346419071?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/265369296346419071/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=265369296346419071' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/265369296346419071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/265369296346419071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/05/um-conto.html' title='Um conto'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-294722275530447401</id><published>2008-04-28T05:02:00.000-07:00</published><updated>2008-07-25T10:56:54.129-07:00</updated><title type='text'>Um poema - II</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O SOBRENATURAL&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O sobrenatural&lt;br /&gt;Se esconde embaixo da cama&lt;br /&gt;Espelhos e cortinas&lt;br /&gt;Vozes, sopros, aparições&lt;br /&gt;Vindas de outras dimensões&lt;br /&gt;- É sina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São segredos de Deus&lt;br /&gt;Que rebentam na escuridão&lt;br /&gt;Em noite de lua cheia&lt;br /&gt;Ou dia de procissão&lt;br /&gt;Nos terços das beatas&lt;br /&gt;Milagres, ritos e meditação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seriam também anjos&lt;br /&gt;Ou almas que vagam sofridas&lt;br /&gt;em rastros de temor&lt;br /&gt;Mas se uma alma vive em ti&lt;br /&gt;Somos iguais no medo e na dor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sobrenatural&lt;br /&gt;Paira sobre o natural&lt;br /&gt;É o óbvio que não se enxerga&lt;br /&gt;O acontecimento que prevemos&lt;br /&gt;E depois do acontecido, descremos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é somente alucinação&lt;br /&gt;Engodo, medo sem explicação&lt;br /&gt;Ainda assim o sobrenatural vive em nós&lt;br /&gt;E negá-lo, aniquilá-lo&lt;br /&gt;Seria calar sua própria voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-294722275530447401?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/294722275530447401/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=294722275530447401' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/294722275530447401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/294722275530447401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/04/um-poema-ii.html' title='Um poema - II'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-4289313194894361213</id><published>2008-04-21T05:52:00.000-07:00</published><updated>2008-04-29T14:22:57.978-07:00</updated><title type='text'>Um poema</title><content type='html'>&lt;strong&gt;MORTE E VIDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Viveria para morrer&lt;br /&gt;Se a morte fosse celebrada&lt;br /&gt;Como um começo&lt;br /&gt;E recomeço&lt;br /&gt;De girassóis a nascerem&lt;br /&gt;Num túmulo sem endereço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveria para morrer&lt;br /&gt;Se a morte fosse serena e bela&lt;br /&gt;Esboçada num sorriso&lt;br /&gt;Como a brisa da janela&lt;br /&gt;Na derradeira casa em que vivi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveria para morrer&lt;br /&gt;E renascer&lt;br /&gt;Mil vezes mais&lt;br /&gt;Do que cada célula do meu corpo&lt;br /&gt;Pudesse contar sobre mim&lt;br /&gt;Antes que tudo desaparecesse&lt;br /&gt;E retornaria, enfim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveria para morrer&lt;br /&gt;Sem agonia&lt;br /&gt;Ou êxtase&lt;br /&gt;Mas apenas a sabedoria&lt;br /&gt;De viver o presente que a vida nos dá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveria para morrer&lt;br /&gt;Se assim tivesse de ser&lt;br /&gt;Para então compreender&lt;br /&gt;O que é a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-4289313194894361213?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/4289313194894361213/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=4289313194894361213' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/4289313194894361213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/4289313194894361213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/04/um-poema.html' title='Um poema'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-1224065697191465852</id><published>2008-03-30T16:09:00.000-07:00</published><updated>2009-12-30T16:30:49.975-08:00</updated><title type='text'>UM PERFIL</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;a href="http://www.portalcapoeira.com/images/stories/Capoeira/mestres/mestreboagente.jpg" class="highslide" onclick="return hs.expand(this)"&gt;  &lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;table style="text-align: center;" width="100%" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="file:///C:/Users/CLECIO%7E1/AppData/Local/Temp/moz-screenshot-1.png" alt="" /&gt;&lt;div&gt;&lt;table style="text-align: center;" width="100%" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;div class="row2"&gt;&lt;table class="modulevideodetails" width="100%" cellspacing="0"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;                    &lt;!-- //TOP SPOTLIGHT --&gt;                                                                  &lt;a name="top-toolbar-article"&gt;&lt;/a&gt;  &lt;h2 class="contentheading"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;(Perfil assinado por mim no jornal "Correio", 2006, em linguagem e formato mais "padrao"...)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/h2&gt;&lt;h2 class="contentheading"&gt;Capoeirista versátil &lt;/h2&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;a href="http://www.portalcapoeira.com/images/stories/Capoeira/mestres/mestreboagente.jpg" class="highslide " onclick="return hs.expand(this)"&gt;  &lt;img style="" src="http://www.portalcapoeira.com/images/stories/thumbs/L2hvbWUvcG9ydGFsY2EvcHVibGljX2h0bWwvaW1hZ2VzL3N0b3JpZXMvQ2Fwb2VpcmEvbWVzdHJlcy9tZXN0cmVib2FnZW50ZS5qcGc=.jpg" border="0" hspace="6" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;" class="subtitulo"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mestre Boa Gente, 60 anos, já fez incursões pelo samba, maculelê, rádio e teatro&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Mestre Boa Gente desenvolve um trabalho social no Vale das Pedrinhas, ensinando a crianças e jovens carentes:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;`Eu aprendo ensinando´&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Quem vê o andar gingado de mestre Boa Gente, arrastando chinelos e calças brancas pelo Vale das Pedrinhas, nem imagina que ele possua tantas outras facetas além da boa e velha capoeira. Iniciado desde os 6 anos nos movimentos africanos, Boa Gente conheceu a capoeira em todas as suas vertentes, experimentando diferentes formas de dança e combate. Seus pés calejados já trilharam desde os passos delicados da dança de salão até a brutalidade pujante dos ringues de vale-tudo. E como se não bastasse tanta versatilidade, Boa Gente já fez incursões pelo samba, maculelê, taekwondô, dança afro, rádio, teatro, e o que mais o seu corpo de 60 anos lhe permitir. "A história aqui é longa. É coisa de mais de 30 anos", adverte ele, preparando-se para uma longa entrevista em sua rádio comunitária no Vale das Pedrinhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ali, cercado de alunos carentes do bairro, mestre Boa Gente desenvolve com eles um trabalho social reconhecido no Vale das Pedrinhas e em todos os cantos do mundo. Servindo de tema para um documentário da National Geographic, o dia-a-dia da Associação de Capoeira Mestre Boa Gente já foi exibido para milhões de pessoas ao redor do globo. No terraço de sua casa, em Vale das Pedrinhas, são ministradas aulas gratuitas para mais de 150 crianças, que aprendem com ele os segredos da dança, capoeira, maculelê e até mesmo da locução de rádio, o que comprova a enorme quantidade de conhecimento acumulado. "Eles aprendem um pouquinho de tudo, e aí é que entra a versatilidade: você tem que encontrar o que o outro se adapta melhor", explica ele, deixando óbvio o seu talento para descobrir talentos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Após as aulas, mestre Boa Gente convida os alunos para participar da elaboração e locução de notícias da rádio comunitária, se inteirando sobre os problemas do bairro onde vivem e conhecendo os princípios da atividade jornalística. "É para tirar a timidez deles nas aulas, aprender a falar", justifica. Criada por ele em 1969, a tradicional Rádio Comunitária de Vale das Pedrinhas divulga notícias gerais e principalmente locais, prestando serviço a toda comunidade. "Aqui é documento, criança que se perde, cachorrinho... se furar um tubo a gente liga para a Embasa", exemplifica ele, enquanto anota a divulgação do enterro de um morador da comunidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Atividades diversas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Os trabalhos na rádio e na associação são divididos com o de professor de capoeira dos alunos de uma escola particular, o Colégio São Paulo. Tendo estudado até a 1ª série, mestre Boa Gente acredita que tem aprendido muito com seus alunos. "Eu aprendo ensinando. Hoje, são eles que me ensinam computador", revela modestamente, apontando para um de seus alunos da comunidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Pai de quatro filhos, Boa Gente conheceu cedo as artimanhas da capoeira, quando ainda atendia pelo nome de batismo, Vivaldo da Conceição, e vendia nas ruas do interior bananas e mingaus. Na época, ele acabou se mudando de Ibicaraí, "município velho, mas que ninguém conhece", no sul da Bahia, para a cidade de Ilhéus, acompanhando a irmã que acabara de se casar. De Ilhéus para São Paulo, a cidade dos sonhos, seria um pulo, se sua mãe não tivesse exigido que ele fosse para Salvador, local que considerava mais seguro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Aqui chegando, morador do Calabar, Vivaldo conheceu Mestre Gato, grande capoeirista do bairro, e com ele deu seus primeiros passos e golpes rumo à arte da capoeira. "Naquele tempo, ela era feita na rua, não se fazia em teatro. A capoeira era discriminada, coisa de preto, marginal", conta ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Como na rapidez dos movimentos de capoeira, Boa Gente foi se tornando conhecido no meio, e realizou apresentações públicas na academia do famoso mestre Pastinha e na Associação Atlética da Bahia. Com a visibilidade, surgiu seu primeiro convite para o exterior, e lá, nas terras frias da Bélgica, seus golpes de capoeira ficaram marcados entre as manifestações folclóricas de vários países do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Filho de Ogum&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;De 1973 para cá, os convites para o exterior não pararam mais: sua capoeira, dança e arte vêm sendo divulgada nos Estados Unidos, em Portugal, Peru, Canadá e, recentemente, no México, onde acaba de receber um convite para reapresentar a peça da qual é protagonista, sobre Zumbi dos Palmares. "Todo ano eu viajo para o exterior. Agradeço a Deus e aos orixás", conta o filho de Ogum, creditando aos convites que recebe à sua versatilidade nata.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Levando a cultura africana aos quatro cantos do mundo, ele já participou de seis documentários estrangeiros, e acaba de voltar de uma viagem a Hollywood, onde ajudou a ensinar capoeira aos dois mais caros atores de artes marciais do cinema americano. "Na primeira vez que fui, fiquei um pouco nervoso. Cair dentro de uma cidade como aquela, sem falar a língua, vindo da periferia de Salvador, do terceiro mundo...", recorda ele, apreensivo. Hoje, a profusão de cartazes, matérias jornalísticas em inglês e fotos no exterior, expostos em sua casa e na rádio comunitária, demonstram que mestre Boa Gente venceu mais essa luta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="texto"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Disposto a divulgar a cultura local, ensinando capoeira em várias escolas e universidades do exterior, ele não pensa em morar fora da Bahia. A idade um pouco avançada, assim como o amor pela cultura local, impedem-no de viver no exterior: mestre Boa Gente não saberia viver sem o tempero baiano, o sol do Verão, ou mesmo um bom prato de feijoada. Mesmo assim, seus olhos brilham ao falar das viagens e experiências que viveu, confirmando sua versatilidade e incansável vontade de aprender. Isso porque, nas horas vagas, o capoeirista ainda arranja tempo para estudar inglês, e já fala espanhol com facilidade. "Vou continuar lutando", anuncia o mestre, sempre disposto a dar novos passos na capoeira, na arte e na vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;!-- google_ad_section_end --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-1224065697191465852?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/1224065697191465852/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=1224065697191465852' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1224065697191465852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1224065697191465852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2009/12/um-perfil-muitos-homens.html' title='UM PERFIL'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-1743966020207708190</id><published>2008-03-15T11:52:00.000-07:00</published><updated>2008-05-17T07:20:03.535-07:00</updated><title type='text'>Uma crônica</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.guanabara.info/wp-content/uploads/2007/10/livros.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand" alt="" src="http://www.guanabara.info/wp-content/uploads/2007/10/livros.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.guanabara.info/wp-content/uploads/2007/10/livros.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;Meu Amigo Imortal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://www.abaporu.org.br/imagens/doacao_livros/foto_livros.jpg"&gt;&lt;/a&gt;Lembro-me dele já nos últimos tempos de faculdade. Tempos distantes, aqueles. Já ao longe avistava sua figura desconjuntada, grossos óculos, cabeludo, levando nos braços três ou quatro livros, desses de capa dura, em grandes letras douradas. Estava sempre atrasado. Andava distraído, atravessava a rua sem mais, olhando os pensamentos perdidos no chão. E era então que ele se aproximava lentamente, às voltas com citações e notas sobre uma última leitura, e preenchia nossas manhãs com autores e títulos ainda sem importância para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos corredores, blasfemava contra repórteres e jornais de grande circulação, atentando para o prazer e a importância de se ler e reler os grandes clássicos. Mas não lhe davam ouvidos. Diziam-no um velho. No entanto, foi a impaciência de sua juventude que o fez se debruçar sobre um conjunto imensurável de obras antigas, tomando Goethe, Proust e Montaigne por amigos íntimos. Perante nosso seleto grupo de futuros jornalistas, ousava declarar que não lhe apeteciam as “novidades”; e citava Borges, em sua visão soturna de que a imprensa veio multiplicando até a vertigem textos desnecessários e fáceis de serem esquecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os colegas, em vão, discutiam, questionavam o que raios ele estaria fazendo ali. Afinal, em anos de convivência no jornalismo, flagravam-no freqüentemente disperso, alheio às aulas, quando não levantava e declamava em voz grave algum poema de um autor clássico abordado porventura por um professor. Escrevia contos. Quando não os agradava, contava bolinhas de papel sobre a mesa, para em seguida levantar-se e, passo a passo, jogá-las uma a uma no lixo da sala de aula. Era demasiado lento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, no pátio vazio da faculdade, consegui que me mostrasse um de seus contos. Apenas li alguns trechos, que descobri incompreensíveis. Foi quando revelou que nutria há muito o desejo íntimo de ser um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Mais do que isso, ele queria o privilégio de constar em referências, ser lido, relido e lembrado por toda a eternidade. Mas na efemeridade da vida, já anoitecia. Sorri e me despedi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis aqui uma das últimas recordações que guardo do meu amigo. Depois disso, só avistei-o mais uma vez ao longe, lendo as mesmas folhas, que um vento repentino teimava em querer arrancar. Até que, nesses últimos dias, recebi uma triste notícia. É que o seu temível hábito de atravessar a rua distraído custou-lhe a vida. Tinha tudo pela frente, mas esquecera-se de olhar para os lados. Nem sequer chegou a publicar seus contos enigmáticos. Encontraram-no caído, os sonhos desmoronados, os passantes sem conseguir identificá-lo. Morrera anônimo. O que me consola é que, nos últimos tempos, ele deve ter se imaginado, desgostoso, tomando chá na ABL ao lado do Paulo Coelho, ou outros escritores de gosto fácil. Acho que com isso morreu menos frustrado por não ter conseguido o que queria. Além de tudo, será por mim eternamente lembrado. Afinal, já não se fazem mais imortais como antigamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(Crônica/conto publicada em 2003, no jornal da faculdade. Bons tempos.)&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-1743966020207708190?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/1743966020207708190/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=1743966020207708190' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1743966020207708190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/1743966020207708190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/03/meu-amigo-imortal.html' title='Uma crônica'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-7864805996630035475</id><published>2008-01-12T09:05:00.000-08:00</published><updated>2008-05-17T07:20:59.423-07:00</updated><title type='text'>O Mar de Sophia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://marius70.no.sapo.pt/b-o%20mar.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://marius70.no.sapo.pt/b-o%20mar.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;O mar tem uma grande importância em minha vida, e acredito que na vida de muitos. Vivendo na Europa, distante das águas e do sol de Salvador, devo afirmar que não é só a saudade de mergulhar naquelas ondas, com temperatura e cores perfeitas, que me fez escrever esse texto. Criada numa cidade quase cercada de mar por todos os lados, posso dizer que ele rodeia quase constantemente os meus sonhos. Sim, falemos mais uma vez, brevemente, de sonhos: em 90% deles, as desavenças, perseguições, vôos, sexo, lutas, tudo que sonho acontece dentro do mar. Algumas vezes, o cenário sofre variações, tornam-se piscinas ou rios, para então desaguarem novamente em oceanos. Estranha obsessão. Os psicanalistas diriam que o mar é como o inconsciente, e aquele que sonha como um ser em busca de melhor conhecê-lo, mergulhando nas profundezas irracionais do seu intelecto. Devem estar certos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não por acaso, as águas estao sempre presentes nos meus filmes, realizados ou não. De início, era uma coisa inconsciente; hoje sinto falta do mar em algumas cenas, e acrescento-o como uma parte de mim. O primeiro filme que realizei, baseado num conto de Jorge Luís Borges, trata da história surreal de um homem que depara-se consigo mesmo quando jovem, numa praça em frente a um rio. Os closes das águas no filme simbolizam o tempo que passa, e fiz questão de modificar o cenário para um lugar deserto e paradisíaco, na areia branca, onde ocorre o encontro do rio com o mar, o jovem e o velho, o passado e o presente, entre outras dualidades do filme, intitulado &lt;em&gt;À Margem do Tempo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;O mar também está presente de maneira quase obsessiva na cultura portuguesa, cujas águas são mais frias, mas nem por isso menos belas. Basta uma rápida passagem por Lisboa para conferir a eterna nostalgia lusitana do período das grandes navegações, presentes nos monumentos, exposições, arquitetura, em que proas de navios enfeitam topos de edificações, e estátuas de homens descomunais da idade média se dirigem ao mar em busca do desconhecido. Talvez seja &lt;i&gt;desconhecido &lt;/i&gt;a palavra que melhor sintetiza o imaginário sobre os oceano&lt;i&gt;s; &lt;/i&gt;e quanto mais sonho com eles, mais descubro sobre imagens e sensacões secretas do meu inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Em minhas descobertas dentro e fora de mim, acabei ancorando na terra das grandes navegações, e encontrei um povo tão apaixonado pelo mar quanto eu. Mas o melhor foi ter-me deparado com uma mulher muito especial, cujas palavras vem povoando minha mente: Sophia de Mello Breyner Andresen. Tradicional escritora portuguesa, muito prestigiada aqui - e pouco conhecida no Brasil -, romancista, poetisa e contista, Sophia me comoveu com seu encantamento pelo mar, que dá o titulo a um dos seus livros de poesia mais conhecidos. Transcrevo abaixo, em sua memória, um trecho que faz transbordar emoções a cada vez que o leio:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;"Quando eu morrer voltarei para buscar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;Os instantes que não vivi junto do mar".&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold;font-size:100%;" &gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;Sophia de Mello Breyner Andresen&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-7864805996630035475?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/7864805996630035475/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=7864805996630035475' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7864805996630035475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7864805996630035475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2008/01/o-mar-de-sophia.html' title='O Mar de Sophia'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-4968349407276642020</id><published>2007-12-16T03:25:00.000-08:00</published><updated>2008-05-17T07:24:00.581-07:00</updated><title type='text'>Sonhos num país chamado Europa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.scarte.com.br/i/geral/20041110_nov-monet-leilao-social.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0pt 10px 10px 0pt; WIDTH: 200px; CURSOR: pointer" alt="" src="http://www.scarte.com.br/i/geral/20041110_nov-monet-leilao-social.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Nunca soube que o sol, o mar e a Bahia me fariam tanta falta. A espontaneidade do povo - dos pescadores do Rio Vermelho aos tagarelas da fila do banco -, a atmosfera viva e clara, a visão da Baía de Todos os Santos nunca me foram tão caras quanto no periodo em que morei na capital Londrina. No entanto, vivi coisas e pessoas que marcariam para sempre minha personalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que cheguei em Londres, há mais de dois anos atrás, tive a exata noção do que era o tal fenômeno da globalização e a União Européia. A pluralidade de culturas, línguas e experiências flagradas num curto período de tempo me fascinava, surpreendia, e nao havia chances de ficar imune a ela. Numa mesma residência universitária, vivíamos eu, uma enorme alemã, minha amiga grega, uma canadense filha de francês, uma inglesa descendente de indianos e uma chinesa de Hong-Kong, todas em quartos separados, mas respirando os diferentes sabores da mesma cozinha. Em Londres, nada parecia ser impossível. Centro cultural do velho continente, sua grande metrópole, ela exibia o tempo todo o quão coesa poderia ser a União Européia, cujos pequenos territórios foram elevados juntos à condição de um só país. De norte a sul, todos aportavam em Londres para falar inglês, atraídos pelo brilho das libras esterlinas. Era uma mistura desenfreada de culturas. Na rua, nao pude conter o riso diante de uma placa anunciando um restaurante "mexico-polones": mas o que viria a ser isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escola de cinema que frequentava, o estranhamento não era menor. Os europeus do mercado comum, pagando anualidade muito mais barata que nós, exibiam curta-metragens de imagens insólitas, ou mesmo documentários de guerras civis que nunca soube. Do Brasil, trouxe na mala o filme de um menininho que encontrava na praia um instrumento mágico, fruto de um sonho que havia tido. Como o mundo infantil é conhecido de todos, as palmas dos colegas pareceram compreender a pequena obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com temáticas mais universais em mente, imaginava que um dia encontraria mais espaço como realizadora na cinematografia européia do que na brasileira. Mas os obstáculos nao foram pequenos. Em pouco tempo veio o frio, menos insuportável do que a neblina e escuridão típicas de Londres. E aquilo parecia não ter fim. Bons casacos eram artigos de luxo, pois nada parecia ser mais caro do que aquela cidade na Europa e no mundo. Atravessava Londres só para trabalhar quando tinha tempo, menos nos famosos ônibus vermelhos do que em metrôs multiculturais, e o estado deplorável das estações me fazia sentir uma toupeira ou outro animal qualquer debaixo da terra. E como em Londres tudo é possível, logo me vi como diretora de arte num filme de um amigo gay espanhol de temática sado-masoquista. Naquele momento, era eu quem me auto-flagelava sem perceber: o clima, as longas distâncias e a superpopulação daquela cidade ja se tornavam dolorosos para mim. O quadro de Monet acima, retratando a capital inglesa numa forte tempestade, revela muito do que se passava nos céus de Londres e em minha alma naquele período.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a primavera vinha chegando, e com ela um sonho que marcaria minha vida. Acordei fascinada, anotei cada imagem ou sensação e não pude mais dormir. Nascia o roteiro do meu primeiro longa-metragem, tipicamente surrealista. Contava a historia de uma personagem sofrida, atormentada, o homem kafkiano que já havia mencionado no post anterior. Escondia-se do sol e de todos como um animalzinho assustado, e sua aparência era nítida: muito magro, pálido, loiro, olhos fundos e claros como um escandinavo. Na história, uma menina de cabelos curtos e cheia de vida - que eu sentia ser meu alter-ego -, chegava dos céus e se propunha a salvá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, qual não foi minha surpresa quando iniciei um romance com um sueco fisicamente idêntico, e que mais tarde descobriria padecer de fobia social! Sim, a vida imitava a arte: me vi tentando de todas as formas ajudá-lo, incentivei-o a praticar comigo meditação, e o convenci sob duras penas a iniciar uma terapia. Só mais tarde fui perceber as coincidências com o meu sonho, que me assustam até hoje. Desde criança minhas noites de sono sempre tiveram um que de premonitório, e já não era algo tao novo para mim. Dei continuidade às aulas de cinema, ao roteiro do longa e aos amigos, ao contrário - por razões um pouco óbvias - do romance escandinavo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para que eu tivesse outro sonho-filme, realizado depois não em celulóide, mas na textura da realidade. Acordei e anotei: duas irmãs de 6 e 9 anos sofriam de fome e abandono numa zona rural do Brasil, e algo acontecia para mudar suas vidas e acentuar suas diferenças drásticas de personalidade. Como sempre, o sonho obedecia ao melhor estilo dos manuais de roteiro: primeiro ato, principio-meio-fim, diálogos encadeados cena apos cena...vinha pronto o projeto de mais um curta! Meses depois, a "coincidência": procurando emprego em Londres, me deparei com duas menininhas francesas de idades e personalidade idênticas ao sonho, que viria a cuidar na condição de babá. Os mesmos tipos de briga entre elas, a mesma tristeza pairando no ar - pois embora nao padecessem da miséria tipicamente brasileira, lidavam com o abandono do pai -, e as formas de reagirem ao sofrimento diametralmente opostas, como no sonho. Mal pude acreditar. Dessa vez mergulhei em teorias junguianas, freudianas, orientais, descobri experimentos que afirmam que viajamos no tempo enquanto dormimos. Isso me fez lidar melhor com episódios mais macabros da adolescência, como pesadelos anunciando mortes que se concretizaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misticimos à parte, depois de tudo isso, renasci. Retornei ao Brasil de férias em pleno verão, revi pessoas queridas, mergulhei no mar e tatuei um sol no pulso. Escuridão, nunca mais. :) Se queria viver na Europa, que fosse num país mais claro e cheio de vida. E assim fui para a Espanha. Lá estudei a língua, reencontrei velhos amigos, pesquisei cursos de cinema e revi o sol, mesmo nos dias de inverno mais rigoroso. Vivia feliz em Madrid. Até que encontrei um português que estava visitando a cidade, e minha herança lusitana falou mais alto. :) Hoje vivemos juntos em Braga, Portugal, uma linda cidadezinha montanhosa onde estudo fotografia e o que mais interessar, enquanto me envolvo em outros projetos interessantes. Sim, esse é o resumo da minha vida errante na Europa. E não acaba aqui: ano que vem deveremos retornar a cidade do sol, !Dios me asista! E que esse mesmo Deus, através de outros belos sonhos, me ajude a entender mais sobre os mistérios do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-4968349407276642020?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/4968349407276642020/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=4968349407276642020' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/4968349407276642020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/4968349407276642020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2007/12/sonhos-num-pais-chamado-europa.html' title='Sonhos num país chamado Europa'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-7321387644034758163</id><published>2007-12-13T17:32:00.000-08:00</published><updated>2008-05-17T07:25:53.638-07:00</updated><title type='text'>No tempo da indelicadeza</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.planetaeducacao.com.br/novo/imagens/artigos/historia/CinemaEscolanoBrasil4.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0pt 0pt 10px 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: pointer" alt="" src="http://www.planetaeducacao.com.br/novo/imagens/artigos/historia/CinemaEscolanoBrasil4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Já nos idos 70/80, o cineasta Glauber Rocha, enquanto crítico, alertara para o modismo da violência nas grandes telas. De lá pra cá, é triste constatar que nada mudou; provavelmente a tendência foi agravada. Num artigo do seu imperdível &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;O Século do Cinema, &lt;/span&gt;Glauber discorre sobre o perfil ideal do herói norte-americano: homem belo, forte, com grande senso de justiça e sanguinário. E como a platéia vibra com ele - e com o sangue alheio! Antes mesmo de Roma atirar os cristãos aos leões sob gritos de euforia, já era sabida a curiosidade mórbida que habita cada um de nós. Afinal, a morte é parte fundamental da vida; é natural que seja assim. Triste é saber que pensam tanto em lucro quando se trata de explorar esses instintos mais desumanos; que seja preferível causar o temor, sentimentos sádicos no espectador, quando se poderia despertar a mais bela das sensações através da grande tela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além da violência e o sadismo, o cinema em geral foi se tornando, após o período da morte sentida de Glauber, mais e mais acelerado. O gênero dos filmes de ação foi consolidado e também os chamados &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;thrillers &lt;/span&gt;de suspense, cada vez mais envolventes, assustadores, dominando com suas poderosas garras os complexos de salas de cinema. No Brasil, a moda justificada dos filmes que recontam a marginalidade não economiza em sangue, suor e tiros; nunca tantos foram mortos pelas telas do cinema brasileiro. Ora, talvez eu esteja exagerando, ou soando moralista demais; mas a cada vez que vejo uma lista ininterrupta de cartazes, todos de "filmes-de-arrancar-o-fôlego", ainda é difícil não arrancar o meu. Sou daquelas que lamentam; não tanto por um tempo que se foi (como a era de ouro do cinema hollywoodiano), mas pelo que poderia ser. Nesses momentos, me vêem à mente a sutileza da troca de olhares de um casal em Wong Kar-wai, os passeios contemplativos à beira-mar num filme de Angelopoulos, ou a histeria ingênua das mulheres almodovarianas. São todos seres solitários, recolhidos num canto mais alternativo, ou relegados à condicao de exibição num período e sala pequenos demais para a sua beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se interessa ao público menos assistir a filmes assim, não é somente pelo desejo sádico de ver sangue escorrendo pelas telas; do alto da minha psicologia de botequim, eu diria que o &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;stress&lt;/span&gt; nas grandes cidades só vem aumentando, assim como o ritmo dos movimentos das ruas, carros e pessoas. É a era da ansiedade, que precisa ser realimentada constantemente por drogas, buzinas e coisas como filmes de ação, suspense, terror ou o que valha. Triste destino. Nunca se ouviu falar em tantos consultórios de psicologia, anti-depressivos, terapias alternativas, yogas e afins; é o que resta aos mais saudáveis que, conscientes de que vivemos a era da ansiedade, buscam o oásis em um filme ou arte mais contemplativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso agora que talvez tenha escrito tudo isso, inconscientemente, em defesa de uma personagem, o protagonista do meu roteiro de longa-metragem. Homem delicado, sensível, marcado pelas agruras da família e da vida - tal qual o jovem Franz Kafka, cujas confissões pessoais me inspirei - é um ser que nao consegue se adaptar a esse mundo. Pior do que isso: foi esmagado por ele. Mas isso ja é assunto para outra postagem. :)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-7321387644034758163?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/7321387644034758163/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=7321387644034758163' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7321387644034758163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/7321387644034758163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2007/12/no-tempo-da-indelicadeza.html' title='No tempo da indelicadeza'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4171321149314375240.post-8395167037472166503</id><published>2007-12-10T19:15:00.000-08:00</published><updated>2008-05-17T07:26:45.081-07:00</updated><title type='text'>As pegadas de Win Wenders</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://hipatia.no.sapo.pt/texas1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://hipatia.no.sapo.pt/texas1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Se é para falar de arte, nada como mencionar o cineasta alemão &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Win Wenders&lt;/span&gt;. Sempre acreditei, como aspirante a roteirista e cineasta, que tinha um processo de criação esquisito. Descobri que Wenders - pelo menos algo em comum, que honra!! - também sofria do mesmo problema desde os tempos de faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade não se trata de um problema, mas algo inusitado. Ele diz numa palestra que não costuma se apaixonar meramente por histórias, como a maioria dos diretores de cinema e romancistas; sua vontade de filmar surge geralmente a partir de lugares por onde anda. Comigo é muito parecido: um vento frio numa rua deserta, o homem solitário da cafeteria, uma luz de abajur na parede, a cortina branca voando numa janela de hotel...são os locais, e mais do que isso, as sensações que eles imprimem, a "atmosfera" deles que me faz querer fazer um filme. E assim, já imagino quem viveria ali, como seria seu dia-a-dia etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa parecida é que as personagens de Wenders tendem a crescer mais do que o próprio enredo. Ri muito quando li isso, porque tenho uma gama de personagens órfãos de historia, mas que saberia dizer de cor como reagiriam em cada situação de suas vidas. Muitas delas são inspiradas em pessoas que conheco, outras em sonhos e vivências, mas todas identificadas com traços da minha personalidade - apesar de nao ser exatamente uma esquizofrênica...hehe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora guarde sempre um desejo obssessivo de criar sei-lá-o-que, cheguei a pensar que teria mais talento como psicóloga do que roteirista, tantos eram as personagens que vagavam sem rumo pela minha mente. Até que entendi que meus filmes não precisam de muitas reviravoltas - os famosos &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;plot-points&lt;/span&gt; dos manuais de roteiro. Não, não. Haverá histórias, mas elas estarão antes de tudo impressas nos gestos, no olhar, e quem sabe mesmo no vazio de um deserto americano por onde perambulou Travis, de &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Paris, Texas&lt;/span&gt;. Ali, na imensidão seca, sem muitas palavras, seu olhar perdido reconta toda a sua história de vida. E nada mais precisa ser dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como Wenders - uma de minhas maiores inspirações -, quero desnudar a alma das personagens, com a maior sutileza e riqueza de imagens que puder, e assim recordar nelas o que já sabia sobre mim e a vida. :)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julia Lima&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4171321149314375240-8395167037472166503?l=poetizarte.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://poetizarte.blogspot.com/feeds/8395167037472166503/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4171321149314375240&amp;postID=8395167037472166503' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/8395167037472166503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4171321149314375240/posts/default/8395167037472166503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poetizarte.blogspot.com/2007/12/as-pegadas-de-win-wenders.html' title='As pegadas de Win Wenders'/><author><name>Julia Lima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979862125616757597</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_l7dVqeFWhqk/SGXeHehcAFI/AAAAAAAAACk/wISJ3WpZWJM/S220/julia+cachecol.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
